Mesmo com recorde de abertura de empresas no país e expansão do crédito corporativo, pequenas e médias empresas seguem pressionadas pelo custo elevado do dinheiro e recorrem a novas modalidades de financiamento para preservar o fluxo de caixa. Dados do Banco Central mostram que o crédito ampliado às empresas atingiu R$ 7,1 trilhões em março, equivalente a 54,9% do PIB, com crescimento mensal de 1,5%. Paralelamente, o governo federal registrou alta de 14,1% na abertura de empresas no segundo quadrimestre de 2025.
Apesar disso, os pedidos de recuperação judicial continuam avançando. Segundo a Serasa Experian, houve 977 processos em 2025, o maior volume desde 2016 e uma alta de 5,5% em relação ao ano anterior.
O cenário é influenciado pela manutenção da Selic em patamar elevado, atualmente em 14,5% ao ano, o que encarece o crédito e pressiona a operação das empresas, especialmente aquelas mais dependentes de capital de giro.
Para a professora de empreendedorismo da FIA, Giovana Vieira, a desaceleração do consumo também contribui para o ambiente mais desafiador. “É possível observar uma queda de consumo desde o ano passado. Raramente você encontra um empreendedor ou uma empresa dizendo que foi um bom ano”, afirma.
Alternativas
Com os bancos tradicionais mais seletivos na concessão de crédito, cresce o espaço para fintechs, operações estruturadas e modelos alternativos de financiamento voltados às PMEs.
A fintech PagBank, por exemplo, utiliza o histórico financeiro e o fluxo de vendas das empresas como base para análise de crédito, reduzindo a necessidade de garantias tradicionais. Segundo o banco digital, o modelo de pagamento é ajustado ao desempenho diário das vendas do cliente, diminuindo o impacto em períodos de faturamento mais baixo.
Outra modalidade que vem ganhando espaço é o risco sacado, também conhecido como confirming. A operação permite que fornecedores antecipem recebíveis com base no risco de crédito da empresa compradora, geralmente com custos inferiores aos do crédito tradicional.
A companhia de investimentos Blackbird afirma ter observado aumento da demanda de médias empresas por esse tipo de estrutura em 2026, diante da permanência dos juros elevados mesmo com o início do ciclo de cortes da Selic. Segundo o sócio José Gaino, a busca por prazos mais longos e crédito mais barato tem levado empresas a renegociar o fluxo de pagamentos.
“As empresas têm prolongado prazos de pagamento. E a gente sabe que boa parte das obrigações do dia a dia, como folha de pagamento ou impostos, precisa ser quitada rapidamente”, afirma.
Entre os casos atendidos pela gestora está a empresa do ramo de suplementos DUX Human Health, que recebeu mais de R$ 81 milhões em financiamentos da Blackbird nos últimos três anos. Segundo Gaino, o risco sacado funciona como uma ferramenta de gestão financeira, permitindo que a empresa compradora ganhe prazo enquanto o fornecedor recebe antecipadamente.
Outra alternativa que tem avançado entre as PMEs são os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), estruturas usadas para antecipação de recebíveis e financiamento corporativo. Em 2025, FIDCs registraram a maior captação entre os títulos de securitização, com os R$ 90,8 bilhões, aumento de 9,5% em relação ao ano anterior.
Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, afirma que esses fundos têm ampliado o acesso ao crédito para empresas que tradicionalmente dependiam apenas dos bancos. “Através de instrumentos como notas comerciais, CPRs e debêntures, esses fundos conseguem ofertar crédito a empresas que sempre utilizaram bancos como principal fonte de funding”, afirma.
Segundo o executivo, os recebíveis também podem ser utilizados como garantia em operações estruturadas desenhadas de acordo com a realidade financeira de cada companhia.