De guerra do delivery a desafios econômicos, empreendedores devem estar atentos ao fatores que impactam o setor para se prepararem para o próximo ano
Mesmo em crescimento, o setor de alimentação e food service viveu um ano de desafios em 2025. De mudanças nos hábitos de consumo a impactos da economia, o cenário exigiu um jogo de adaptações nos negócios – e ganhou quem soube ler e se adequar às mudanças. Na avaliação de especialistas ouvidos por PEGN, o mesmo deve valer para 2026, e a principal dica é se manter atento às tendências do mercado.
Do lado dos consumidores, Simone Galante, CEO e fundadora da Galunion, consultoria especializada em food service, avalia que houve mudanças nos processos de escolhas nas compras de comida. De acordo com a pesquisa Alimentação Hoje: a visão do consumidor, realizada pela Galunion realizada em março de 2025, os consumidores estão cada vez mais conscientes de preço e mais atentos a frustrações básicas, como tempo de espera (motivo de insatisfação para 46% das pessoas), preço elevado sem justificativa pela experiência ou qualidade (37%) e atendimento ruim ou pouco atencioso (33%).
Sergio Molinari, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e fundador da Food Consulting, ainda indica que o perfil de consumo foi influenciado por outros dois aspectos. Em primeiro lugar, ele avalia que o setor tradicional ganhou novas concorrências, como o crescimento acelerado de produtos como suplementos nutricionais, snacks proteicos e medicamentos para emagrecimento.
Além disso, ele afirma que há um desvio crescente de onde as pessoas estão buscando alimentação fora do lar. “Elas estão diminuindo sua frequência de consumo presencial nos estabelecimentos e acelerando seu consumo em modalidades como delivery, takeaway, marmitas, grab and go etc.”, diz.
Do lado econômico, Galante ressalta que o ano foi marcado por inflação de alimentação fora do lar mais alta, custos internos elevados, orçamento doméstico pressionado por endividamento e crédito mais caro. “Na prática, isso fez com que as pessoas continuassem saindo para comer fora, mas com escolhas mais planejadas, alternando momentos de contenção com indulgência e socialização”, afirma a especialista.
Como resultado, Molinari afirma que a expectativa do mercado é de um crescimento de 2% a 3% no Foodservice (em termos reais, descontada a inflação) neste ano, frente a um PIB (Produto Interno Bruto) que deve crescer 2,25%, segundo projeção do relatório Focus. Para o especialista, em 2026 o setor deve mais uma vez crescer pouco acima do PIB. “Será mais um ano em que a estratégia genérica será ganhar participação de mercado”, diz o professor.
Com base nesse panorama, para se preparar para o próximo ano, confira algumas tendências para o setor de alimentação em 2026:
1. Delivery: mais players, mais demanda, mais preparação
Após os primeiros desdobramentos da guerra do delivery que marcou o segundo semestre de 2025, a presença de novos players, como 99Food e Keeta, deve aquecer o mercado de entrega de comidas em 2026. Na avaliação de Molinari, ainda que o mercado possivelmente continue sob a liderança de um aplicativo no próximo ano, é importante que os empreendedores se mantenham atentos às demandas dos consumidores em apps alternativos e estejam prontos para atender na frente de entregas.
Segundo Galante, em um ambiente com mais concorrentes e mais campanhas, o consumidor será estimulado a testar e comparar mais o preço total, taxas, tempo de entrega, qualidade e experiência no aplicativo – e pedirá delivery com muito mais frequência.
“O delivery continuará crescendo, mas os ganhos não serão automáticos. Em um cenário de guerra de promoções, quem cuida da equação de valor, escolhe bem seus parceiros de plataforma e garante consistência da experiência tem mais chance de transformar volume em margem real”, diz Galante.
2. Preço no foco do consumidor
Na avaliação dos especialistas, em um ano em que a renda dos brasileiros ainda será pressionada por inflação, bets e custo de vida elevado, o preço baixo será um fator determinante para a escolha dos consumidores na alimentação fora de casa.
Nesse sentido, a fundadora da Galunion afirma que empreendedores não devem desconsiderar a importância da percepção de valor dos clientes sobre a marca ou produto, mas devem ter em mente estratégias para tentar viabilizar opções mais acessíveis. De acordo com uma pesquisa da consultoria realizada em agosto deste ano, 52% dos consumidores já buscam por produtos mais econômicos.
Entre os caminhos para lidar com o cenário em 2026, a especialista sugere considerar menus inteligentes, com porções ajustadas e combos bem pensados.
3. Saúde com sabor
Das canetas emagrecedoras ao acompanhamento nutricional, os especialistas avaliam que a busca por opções saudáveis de alimentação deve crescer em 2026. Para Molinari, os consumidores devem colocar na balança desde a composição nutricional dos alimentos até a quantidade de comida ofertada.
“O consumidor quer opções equilibradas que não abram mão do prazer”, avalia Galante. Para a especialista, além de oferecer alternativas com potencial de atrair o público que busca por opções saudáveis, também é necessário que os estabelecimentos estejam atentos à comunicação desses produtos, o que inclui até mesmo o design do menu, que pode ressaltar que um item faz parte de uma categoria saudável.
4. Collabs entre marcas
As chamadas collabs, ou colaboração, entre marcas também já marcaram presença em 2025 e devem crescer e se consolidar como uma estratégia para atrair os consumidores no próximo ano, avaliam os especialistas. Para surfar essa onda, é possível considerar desde parcerias com pequenos negócios até colaborações com grandes marcas, incluindo opções de fora do setor de alimentação.
“Parcerias ampliam visibilidade, reduzem riscos, conectam comunidades e fortalecem narrativas. Consumidor confia mais em collabs do que em comunicação isolada”, diz Galante.
5. Tecnologia
Além de influenciar o comportamento digital dos consumidores, que buscam cada vez mais mobilidade, imediatismo, autonomia e personalização, a tecnologia pode ser uma aliada estratégica dos negócios de alimentação no próximo ano, apontam os especialistas. Para Galante, empreendedores deve considerar a tecnologia um “motor de eficiência” dos negócios.
Para isso, um dos destaques de 2026 ainda será o uso de inteligência artificial. Segundo Molinari, entre empresários que cresceram acima da média do mercado em 2025, a incorporação de IA no negócio foi um consenso. A tendência permanece em diferentes esferas do negócio, que incluem atendimento, cardápio e processos internos de gestão.