Estatísticas que acompanham o desempenho brasileiro desde 2008 mostram que o número de micro e pequenas empresas exportadoras mais que dobrou, passando de 5 mil para 11.469 em 2024. Os dados integram o relatório Exportação e Importação por Porte Fiscal das Empresas, elaborado pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/MDIC), publicado em março.
“Temos crescido ano após ano”, ressalta Gustavo Reis Melo, analista de competitividade do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Na indústria de transformação [ramo responsável por processar insumos e agregá-los em novos produtos], a produção de alimentos e bebidas tem conquistado cada vez mais espaço”, observa. Artesanato, cosméticos, moda e até itens mais clássicos, como móveis, integram a lista das mercadorias desejadas no exterior, diz ele, e novidades sustentáveis, saudáveis e tipicamente brasileiras têm mais chances de emplacar operações perenes.
Elisabete Donato, gestora do Programa Paulista de Capacitação para Exportação (ExportaSP), executado pela InvestSP (agência vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo), comenta que a dimensão continental do Brasil dificulta a percepção de que exportar é possível. “Pequenas empresas nascem para atender a cidade em que estão e, se saírem do estado, já estão felizes”, diz. Para mudar esse cenário, a iniciativa já apoiou 1,2 mil empreendedores a transpor as fronteiras nacionais.
Laudemir André Müller, analista de negócios internacionais da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), aponta o fomento à cultura exportadora como um alicerce fundamental para o crescimento do Brasil nos próximos anos. “Cerca de 70% dos negócios a que atendemos são pequenos e médios, e o desafio é mostrar que podem exportar. É preciso pensar produto, câmbio e logística, mas o mercado externo não é para quem quer, e sim para quem se prepara”, enfatiza.
Na busca por novos compradores, vale considerar mercados ainda pouco explorados. Nações da África, por exemplo, demonstram interesse na aquisição de produtos de cooperativas de agricultura familiar, incluindo as ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Temos um imenso mercado consumidor [naquele continente] que valoriza alimentos naturais, sustentáveis e de qualidade. O Brasil tem muito a oferecer, e as cooperativas representam um modelo de produção que dialoga diretamente com as necessidades desses países”, pontua o presidente da Câmara de Comércio Afro-brasileira (AfroChamber), Rui Mucaje.
Preparação da empresa
☐ Obter habilitação na Receita Federal
☐ Adaptar produto a exigências do país de destino (componentes, embalagem, rotulagem)
☐ Analisar custos: trâmites, tributos, frete, seguro, câmbio
Com ciência, tecnologia e determinação, a engenheira de produção Ana Lídia Zoni, 42 anos, abriu caminhos na floresta para produzir e exportar uma das bebidas mais antigas da humanidade: o hidromel. Apreciada por celtas, gregos e romanos no passado, a “bebida dos deuses” ganhou sabor amazônico a partir da utilização do mel de abelhas nativas sem ferrão, inovação que está ganhando o mundo.
Hoje, sete anos após a fundação, a Hidromel Uruçun conta com uma fábrica no parque tecnológico da Universidade Federal do Pará, em Belém (PA), e uma distribuidora em São Paulo. Fornece para compradores de países como África de Sul, Alemanha, Índia, Panamá, Portugal e Suriname, além de resorts caribenhos.
“Esse investidor abriu uma holding em Hamburgo e ajudou na importação”, relata. “Ter alguém que junte forças é fundamental. Contar com um alemão falando com o mercado do país facilitou bem mais do que se fosse só eu, uma brasileira com rosto indígena, buscando espaço lá fora”, diz. Já o registro do produto para entrar no mercado europeu não foi nada simples, conta ela, e envolveu idas e vindas de documentação com tradução juramentada. “Segui por acreditar na relevância do que estava fazendo.”
Com o objetivo de garantir a qualidade que conquistou o paladar estrangeiro, pequenos produtores são capacitados, contribuindo para a modernização dos negócios locais. “Compro mel de cooperativas, comunidades tradicionais e fazendas. Cerca de 300 famílias são impactadas, com geração de renda e melhoria da qualidade de vida”, ressalta a empreendedora.
Foi em Paris, durante a edição de 2019 do Salon du Chocolat, que a baiana Carine Assunção, 42 anos, teve certeza que a barra vegana 70% produzida pela sua empresa, a Natucoa Chocolates, em Itabuna (BA), tinha potência para ser exportada. “O produto teve grande destaque e ali acendeu uma luzinha”, lembra.
No ano seguinte, porém, veio a pandemia, e a vontade de se lançar no mercado internacional ficou no modo de espera por três anos. Em 2022, o sócio, Rogério Assunção, retornou ao mesmo salão e também participou da feira de chocolates no Porto, em Portugal. A nova viagem reacendeu o entusiasmo da dupla em redesenhar processos com foco no mercado europeu.
“Apostamos no apelo da sustentabilidade, da agricultura familiar e da inclusão social, muito valorizados no norte europeu”, diz Assunção. Com o desenho traçado, definiram o primeiro destino. “Decidimos entrar por Portugal, pela facilidade do idioma.” Em 2023, Rogério desembarcou em terras lusitanas para uma estada de 14 meses dedicados à construção de parcerias. Na bagagem, levou não apenas os chocolates da Natucoa, mas também 52 outros produtos da agricultura familiar oriundos da região de Ilhéus.
Em 2018, Janadeli Martins Cuareli e Sueli Hinze, fundadoras da Cheiro Brasil, receberam a visita de uma amiga envolvida com exportação na sede da empresa, em Balneário Camboriú (SC). “Ela levou o sócio, que começou a falar sobre paletes, enquanto eu me perguntava o que era aquilo”, recorda-se Hinze, 57 anos. Os visitantes foram embora, e as sócias caíram na gargalhada: “A gente não tinha a menor condição [de exportar]”.
Enquanto isso, Cuareli, 46 anos, participava como ouvinte do programa Go To Market, do Sebrae-SC, iniciativa que incentiva empresas a serem contadoras globais de histórias para se destacar no mercado internacional. Em uma das aulas, ouviu falar no Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX), da ApexBrasil, que prepara empresas para exportar com orientação de especialistas em comércio exterior.
“Aquilo me encheu os olhos e me lembrou da visita que, anos antes, queria comprar, enquanto a gente nem sabia do que ela estava falando”, conta Cuareli. Ela então inscreveu a Cheiro Brasil na seleção do PEIEX, foi escolhida e, após 18 meses de acompanhamento, viu o ponto de vista das empreendedoras se expandir: “Achávamos que mercado internacional era só para indústria grande. Aprendemos que pequenas também podem exportar, desde que se preparem, tenham um bom produto e desenvolvam parcerias”.
No caso delas, havia outro complicador. “Para quem produz cosméticos, medicamentos ou alimentos, leva tempo por conta das autorizações internacionais. Cada país tem uma normativa”, alerta Cuareli. Para exportar produtos como protetor solar e sabonetes bioativos, o primeiro passo das sócias foi verificar se os componentes da formulação estavam autorizados no novo mercado. A negociação com o Uruguai, por exemplo, demandou adaptações relativas a conservantes e embalagens.
No início, a proposta encontrou resistência. “Experiências anteriores geraram passivos, e as famílias tinham receio”, lembra o fundador, Orlantildes Santos Pereira, 71 anos, filho e neto de agricultores locais. “Mas eu lembrava do sofrimento de meu pai e de meu avô e queria fazer algo.”
Insistindo na ideia de que crescer junto é mais fácil do que tentar sozinho, ele conseguiu iniciar a produção coletiva com 27 cooperados. Sete anos depois, o número saltou para 48, e o cacau produzido de maneira sustentável atravessa o Atlântico para virar barras e bombons em solo europeu. “Sentimos um orgulho danado quando, três anos após a fundação, nosso cacau começou a ser exportado para a Suíça”, recorda-se. O primeiro lote vendido foi de líquor (derivado também chamado de massa ou pasta), seguido do envio de nibs (amêndoas torradas e descascadas). Com a entrada no mercado dos Estados Unidos, o faturamento internacional alcançou R$ 800 mil em 2024.
Em breve, a cooperativa deve ampliar seu portfólio com o envio de amêndoas finas secas. “Já fechamos com um grande comprador, também suíço, e estamos engajados em novas negociações”, diz Santos, celebrando o impacto socioeconômico do empreendimento: “Cerca de 500 pessoas são beneficiadas pela geração de renda, e mais gente está querendo entrar”.
Nessa trajetória, ele destaca a contribuição do Sebrae e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural: “Tivemos muito apoio”. E alerta que, para ingressar em outro país, qualquer capacitação em comércio exterior terá de ser complementada pelo aprendizado sobre a realidade do novo mercado. “Exportar cacau tem especificidades, como o ágio aplicado pelas empresas de moagem atuantes no Brasil, que eleva o valor quando comparado à referência da Bolsa de Nova York. É difícil explicar isso ao comprador estrangeiro.”
Quando o publicitário Murilo Santucci Lavezzo, 36 anos, decidiu pedir demissão de uma multinacional para abrir uma casa de açaí em Tatuí, no interior de São Paulo, causou estranheza. “Nenhum dos meus familiares é empreendedor, e parecia loucura”, lembra.
O que ninguém imaginava era que, em pouco mais de uma década, a pequena lanchonete Açaí Town, fundada por ele, evoluiria para uma fábrica que vende mais de 120 toneladas por mês para 30 países. Menos ainda que as exportações se tornariam o carro-chefe do negócio, representando 80% do faturamento total. Hoje, Emirados Árabes, Estados Unidos e Portugal são os principais compradores.
De início, Lavezzo tentou se dividir entre a Açaí Town e o antigo emprego. “Mudei para a casa da sogra em Tatuí e abri uma loja de 40 metros quadrados, que minha mãe apelidou de ‘boteco do açaí’. O ano era 2014, de Copa do Mundo. No primeiro mês, atingimos o ponto de equilíbrio. No segundo, começamos a crescer.”
Para crescer, buscou cursos gratuitos relacionados ao açaí. Participou de formações sobre paleta e sorbet até encontrar o programa Brazilian Flavours, da ApexBrasil, que incentiva a exportação a mercados estratégicos. A iniciativa reúne produtos destinados ao consumidor final que se destacam por qualidade, valor agregado e atributos como origem brasileira, apelo saudável, sustentabilidade, singularidade e certificações reconhecidas.