Franquias apostam em dados, tecnologia e escalas flexíveis para se adaptar ao fim da 6×1

Redes estudam como redistribuir equipes e tarefas para preservar o atendimento, controlar custos e organizar os novos dias de descanso

A reorganização de escalas, o uso de dados sobre o movimento das unidades e a adoção de tecnologias estão entre as estratégias que redes de franquias estudam para se adaptar ao fim da jornada 6×1. Embora as soluções variem conforme o segmento e o porte das unidades, o objetivo é o mesmo: reorganizar a operação sem comprometer o atendimento nem pressionar excessivamente os custos.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1, promulgada no dia 16 de outubro de 2026, prevê dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial. A jornada máxima semanal será reduzida gradualmente: a partir de 15 de dezembro, passará de 44 para 42 horas; 14 meses após a publicação da emenda, chegará a 40 horas. Assim, a nova regra põe fim à escala de seis dias de trabalho para um de descanso.

Na Saúde Livre Vacinas, rede de imunização com mais de 140 clínicas em operação, a adaptação já está em fase de testes. A rede avalia formatos diferentes conforme as características de cada unidade e as preferências dos colaboradores. Segundo Rosane Orth Argenta, sócia-fundadora e CEO da empresa, o modelo 5×2 com revezamento deve ser o mais utilizado. E escala 12×36 também está em análise para situações em que seja adequada e juridicamente validada.

“Nossa organização está pautada em acompanhar a demanda de cada clínica para distribuir a equipe ao longo da semana, mas sem que isso comprometa a capacidade de atendimento das clínicas”, diz Argenta. Para a empreendedora, o principal desafio é compatibilizar as folgas com os horários de maior procura e manter profissionais capacitados disponíveis em todos os períodos. Com os primeiros testes iniciados no começo do segundo semestre deste ano, Argenta afirma que a empresa ainda não identificou diferenças práticas de benefícios ou resultados entre os dois formatos de escala.

A OrthoDontic, rede de odontologia com mais de 350 unidades, também está montando novos modelos de jornada de trabalho para as clínicas da rede. De acordo com Flávia Teixeira, gerente de Gente & Gestão, da OrthoDontic, as discussões começaram em maio deste ano e, em 16 de outubro, a franqueadora enviou orientações iniciais aos franqueados para que começassem a mapear os impactos e planejar adaptações nas clínicas. Atualmente, as unidades funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h, além dos atendimentos aos sábados.

Teixeira avalia que o impacto pode variar conforme o porte da clínica, o volume de pacientes e a estrutura da equipe. “Unidades menores podem ter menos flexibilidade para redistribuir jornadas, enquanto clínicas maiores precisam administrar equipes e fluxos de atendimento mais amplos. Por isso, não acreditamos que exista uma solução única para toda a rede”, diz a executiva, que ressalta que o impacto atinge diferentes áreas do negócio, como recepção, assistentes comerciais e auxiliares de saúde bucal. De acordo com Teixeira, a OrthoDontic ainda não tem uma estimativa consolidada de quantas contratações adicionais podem ser necessárias.

Em alimentação, a conciliação entre escala e horários de pico também está no centro do planejamento. A Puro.Açaí, rede cearense com 82 unidades no país, por exemplo, criou um comitê em agosto para estudar os impactos da mudança e pretende iniciar projetos-piloto nos próximos meses, com início pelas lojas próprias. “Criamos o comitê porque não queríamos ser reativos a nenhuma mudança, mas sim mapear os cenários de forma preventiva”, diz Fernando Horácio, diretor-executivo da Puro.Açaí.

De acordo com Horácio, a empresa não tem uma previsão fixa de contratações para toda a rede, de modo a avaliar cada unidade conforme porte, faturamento e perfil operacional. “Nossa ideia principal é não tratar a contratação de novos funcionários como a primeira solução, já que isso impactaria diretamente na margem de lucro do franqueado. Em vez de simplesmente preencher as horas reduzidas com mais pessoas, a estratégia é focar em como absorver essa demanda com otimização”, afirma.

Segundo o diretor, quando o reforço de mão de obra for necessário, a rede considera alternativas como horistas e folguistas, para cobrir os momentos de maior movimento sem ampliar permanentemente o quadro de funcionários. Horácio afirma que o objetivo é ter escalas baseadas em dados de fluxo, como números de venda, além de mapeamentos de horários de pico e de ociosidade. “As trocas de turno e folgas precisam ser articuladas a partir do comportamento de atuação em cada unidade”, diz.

A partir das análises de cada unidade, a Puro.Açaí também estuda mudanças nos horários de funcionamento conforme o fluxo de clientes, além de alterações em processos como a montagem dos produtos, o controle de desperdício e a gestão de estoque. A empresa pretende ampliar o uso de totens de autoatendimento e sistemas integrados de pedidos, buscando reduzir tarefas manuais e aumentar a produtividade.

A tecnologia aparece também nas estratégias da OrthoDontic e da Saúde Livre, mas com aplicações diferentes. Na rede odontológica, a digitalização e a integração de processos buscam simplificar etapas da jornada do paciente e da rotina dos profissionais, para que as equipes dediquem menos tempo a tarefas operacionais. Segundo Teixeira, a empresa acompanha a satisfação dos pacientes por meio de indicadores como o NPS, que podem ajudar a identificar se mudanças na organização do atendimento afetam a experiência.

Na Saúde Livre, a automação está voltada a tarefas repetitivas do atendimento, como chamadas e lembretes sobre próximas doses. “Esperamos economizar ao menos duas horas ao dia dos profissionais de atendimento ao cliente”, diz Argenta, que indica que ainda há oportunidades de ampliar a automação para confirmações de agendamento, respostas a dúvidas administrativas frequentes e organização das solicitações recebidas.

Na Academia Corpo e Saúde, rede de academias com 40 unidades que operam das 6h às 22h na maioria dos dias, a mudança pode atingir diferentes áreas, da recepção e equipe de limpeza aos professores. Patrícia Madeira, diretora de expansão e franquias, avalia que a contratação de folguistas pode ser necessária, mas diz que a rede ainda está refazendo escalas e analisando a dimensão da demanda. A previsão é começar os primeiros testes práticos de novas escalas em novembro.

Por enquanto, Madeira afirma que a orientação aos franqueados é revisar os números e identificar os dias em que é possível operar com menos pessoas para acomodar as folgas. De acordo com a executiva, o plano de adaptação da rede também considera a sazonalidade. Segundo ela, o movimento nas academias tende a cair a partir de 10 de dezembro, o que pode dar às unidades mais tempo para ajustar a equipe antes da transição.

“Hoje, os custos com a folha de pagamento no nosso modelo de negócio já são impactantes, tanto que muitas operações acabam trabalhando com redução de equipe e isso por vezes já compromete a entrega de serviços. O momento pede uma análise profunda do que deve ser feito”, afirma Madeira.

Além dos custos

Mesmo com os desafios, as redes avaliam que os novos modelos podem ser uma ferramenta positiva para a gestão de pessoas. “A flexibilidade na organização do trabalho pode ser um fator importante para a atração e retenção de profissionais, especialmente em um mercado no qual a qualidade de vida e o equilíbrio entre as atividades pessoais e profissionais ganham cada vez mais relevância”, diz Teixeira, da OrthoDontic.

Avaliação semelhante é compartilhada pela Puro.Açaí. Segundo Horácio, a empresa enxerga o fim da escala 6×1 não apenas como um desafio estrutural, mas como um “movimento humano necessário”. “No nosso segmento, lidamos diariamente com pessoas servindo pessoas. Um colaborador com mais qualidade de vida, tempo para a família e descanso adequado entrega um atendimento de excelência”, afirma.

Para o diretor da rede de açaiterias, o objetivo a partir de agora é equilibrar a equação entre pessoas e sustentabilidade operacional e financeira. “Acreditamos que as marcas que conseguirem fazer essa transição de forma inteligente e tecnológica sairão muito mais fortes, eficientes e conectadas com os valores do consumidor do futuro”, conclui.

Fonte: PEGN