Pequenos negócios gastam 468 horas por ano com burocracia financeira, diz pesquisa

Conduzir um pequeno negócio no Brasil exige que o empreendedor acumule funções. Além de vender, prestar serviços e atender clientes, ele também assume tarefas administrativas, fiscais e bancárias. De acordo com a pesquisa “Pequenos Negócios e a Falta de Tempo por Burocracia”, realizada pelo Nu Empresas (solução do Nubank para pessoas jurídicas) em parceria com a Bridge Research e divulgada nesta quinta-feira (8/10), donos de micro e pequenas empresas dedicam, em média, nove horas por semana a obrigações financeiras e burocráticas. Em um ano, isso representa aproximadamente 468 horas consumidas por rotinas operacionais que não geram faturamento direto.

O levantamento ouviu 1,2 mil empreendedores de todas as regiões do país, englobando clientes e não clientes da instituição financeira, sendo 560 Microempreendedores Individuais (MEI) e 640 micro e pequenas empresas (MPE) — das quais 431 pertencem ao perfil de comércio/varejo e 209 ao segmento de escritórios/consultórios. O perfil demográfico demonstra que os entrevistados têm idade média de 45 anos, tempo médio de atuação da empresa de 7 anos e faturamento médio anual de R$ 210 mil.

A distribuição geográfica cobriu as regiões Sudeste (58%), Nordeste (17%), Sul (15%), Centro-Oeste (7%) e Norte (3%), com coleta via painel online e margem de erro de 2,8 pontos percentuais para o total dos dados. Entre os motivos relatados para a abertura da empresa, destacam-se a busca por independência e autonomia (34%), a identificação de uma oportunidade de mercado (29%) e a flexibilidade de horário (27%), enquanto a necessidade de renda por falta de opção foi citada por 15% dos entrevistados.

O peso da burocracia na jornada semanal varia conforme o modelo de operação e a estrutura do negócio. No setor de comércio e varejo, que exige atendimento em balcão e uso frequente de maquininhas de cartão, a dedicação média alcança 11 horas semanais. Entre as micro e pequenas empresas, a carga é de 10 horas por semana, enquanto o tempo reduz para 8 horas semanais entre os microempreendedores individuais. O levantamento detalha que 48% dos entrevistados gasta 6 horas ou mais por semana com burocracia, sendo que 20% ultrapassam 11 horas semanais dedicadas exclusivamente ao trabalho administrativo.

No topo das atividades que mais tomam a agenda dos empreendedores estão o cumprimento de obrigações fiscais e tributárias (43%), o controle diário de entradas e saídas de caixa (41%) e a emissão de notas fiscais (40%). Na sequência, aparecem a gestão do fluxo de caixa (37%) e a conciliação de recebimentos (30%), que consiste no processo operacional de conferir manualmente se o dinheiro pago pelos clientes em cartão ou Pix entrou na conta.

Devido ao tempo gasto com a burocracia, 85% dos empreendedores relataram ter deixado de realizar tarefas essenciais para o negócio nos três meses anteriores ao estudo. A principal atividade sacrificada foi o planejamento do crescimento da empresa para o ano seguinte (37%), seguida por investimentos em divulgação ou marketing (35%), dedicação de tempo aos clientes atuais (35%) e participação em cursos ou treinamentos do setor (33%).

Maximiliano Damian, vice-presidente do Nu Empresas, destacou a relevância de mensurar estatisticamente o tempo consumido pela burocracia na rotina do empreendedor. O executivo ressaltou o papel da tecnologia e do processamento de dados para democratizar o acesso ao sistema financeiro.

“O principal achado foi ver o quanto a questão da burocracia toma tempo e impacta a vida do cliente. Acho que é algo que a gente, internamente no banco, sempre teve como visão e entender o seguinte, que o grande desejo do cliente não é só salvar o tempo dele. É a busca por otimização do tempo, pois é uma ferramenta de melhoria e crescimento do negócio”, pontuou.

Faturamento e saúde pessoal

Essa sobrecarga diária ainda impacta a percepção de faturamento e na saúde pessoal do empreendedor. Segundo o levantamento, 68% dos entrevistados concordam que a empresa seria mais lucrativa se houvesse menos burocracia a resolver, e 53% declaram sentir estresse e ansiedade provocados pelas tarefas financeiras. Além disso, 53% afirmam deixar de focar em estratégia e crescimento devido ao acúmulo administrativo, e 45% relatam já ter perdido oportunidades de negócio enquanto resolviam pendências burocráticas.

Quando questionados sobre como usariam o tempo caso o banco automatizasse 100% das rotinas de cobrança e pagamento, 50% responderam que se dedicariam à estratégia de vendas e crescimento, 49% buscariam novos clientes e mercados, 46% investiriam na melhoria do produto ou serviço e 46% planejariam a expansão da empresa.

A pesquisa revelou um descompasso tecnológico entre a operação de vendas e a gestão interna dos pequenos negócios. Enquanto a parte que fala com o cliente já se encontra digitalizada — com 61% utilizando maquininhas de cartão, 60% adotando cobrança automatizada por boleto ou link e 59% emitindo nota fiscal eletrônica —, o controle financeiro por trás do balcão permanece analógico. Neste contexto, 53% dos empreendedores gerencia o fluxo de caixa por meio de planilhas eletrônicas e 23% ainda recorrem a anotações em cadernos ou papel, enquanto apenas 19% utilizam softwares de gestão ou sistemas ERP.

A rápida adesão ao Pix, recebido por 85% das empresas, também aumentou a carga de trabalho operacional. Por operarem com uma média de três canais de recebimento diferentes — número que chega a quase quatro no comércio —, os empreendedores enfrentam uma fragmentação de extratos, taxas e prazos que transforma a conciliação bancária em um dos principais gargalos de tempo.

Uso da IA nos pequenos negócios

A adoção de Inteligência Artificial já alcança 66% dos donos de pequenos negócios, sendo que 59% afirmam que a tecnologia reduziu o tempo e o esforço de forma clara. Contudo, o uso da IA está concentrado na criação de textos e conteúdos (68%) e na produção de imagens ou vídeos (63%), sendo aplicada para tarefas financeiras ou administrativas por apenas 30% dos entrevistados. No âmbito das soluções bancárias e da análise de dados, a tecnologia tem atuado na concessão responsável de crédito e na organização de caixa. De acordo com a base do Nu Empresas, 54% dos clientes utilizam as Caixinhas PJ, das quais 77% são destinadas a objetivos específicos, como planejamento de imprevistos e capital de giro, com 86% dos valores mantidos guardados por mais de 30 dias.

A sobreposição entre o patrimônio pessoal e o caixa da empresa foi outro ponto mapeado pelo estudo. Diante de falhas no faturamento, 45% dos empreendedores utilizam recursos de pessoa física para cobrir compromissos da empresa, recorrendo a reservas pessoais (26%), cartão de crédito pessoal (11%), linhas de crédito físicas (5%) e cheque especial pessoal (3%). Além disso, 46% dos entrevistados apontam que a ajuda para separar as finanças pessoais das da empresa é um dos suportes que mais fazem falta no cotidiano.

Acesso ao crédito

Antônio Valdir Oliveira Filho, gerente nacional de crédito e capitalização do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), conectou o tempo perdido em burocracia à necessidade de elevar a produtividade dos pequenos negócios no país. Ele defendeu que a oferta de crédito precisa caminhar lado a lado com a orientação da gestão por meio do crédito assistido. “Nós entendemos que crédito é como remédio. Ele tem que ser dado na posologia certa. Se você errar a posologia, você coloca em risco a vida do paciente. Por isso, a defesa da tese do crédito assistido”, afirmou.

Ampliação do limite transacional

Além da pesquisa, o Nu Empresas divulgou a ampliação do acesso ao limite transacional, recurso voltado a negócios em estágios mais avançados de crescimento. A ferramenta permite que donos de contas PJ definam quanto cada funcionário autorizado pode movimentar, facilitando a delegação de pagamentos e transferências sem abrir mão do controle financeiro.

Fonte: PEGN