De shows a maratonas: como pequenos negócios podem lucrar com grandes eventos

Megaeventos movimentam bilhões e abrem espaço para pequenos fornecedores, expositores e empreendedores do entorno

Quando milhares de pessoas se deslocam para assistir a um show, participar de uma feira ou acompanhar uma competição, o impacto vai muito além dos portões da programação. Hotéis, restaurantes, serviços de transporte, fornecedores e comércios do entorno passam a atender a uma demanda concentrada e disposta a consumir. Para micro e pequenos negócios (MPEs), o desafio é transformar esse movimento temporário em faturamento e relacionamento duradouro com novos clientes.

O tamanho desse potencial aparece nos números. Em 2024, cerca de 300 mil empresas do setor de eventos participaram de mais de 10 milhões de realizações em todo o país. Juntas, geraram 12,7 milhões de empregos, recolheram R$ 133,9 bilhões em impostos e movimentaram R$ 813,5 bilhões – MPEs responderam por 75% desses recursos. A projeção é que a receita total ultrapasse R$ 1,5 trilhão em 2035. Os dados são do estudo III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil 2024/2025, realizado pelo Observatório da Indústria do Ceará em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC Brasil) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Empreendimentos de todos os tamanhos têm espaço. “Nos grandes eventos, é comum a organização contratar uma empresa de maior porte que, por sua vez, subcontrata uma rede de pequenos fornecedores. Assim, os negócios menores se inserem nessa cadeia produtiva, prestando serviços especializados”, diz Rodrigo Soares, presidente do Sebrae.

O mercado, um dos mais afetados pela pandemia de covid-19 em 2020 e 2021, voltou a crescer e demanda serviços em áreas como alimentação, comunicação, hospedagem, montagem, segurança, tecnologia, transporte e turismo. “Estamos falando essencialmente de uma economia de micro e pequenas empresas que atuam em inúmeras frentes”, afirma Josbertini Clementino, diretor-executivo da ABEOC Brasil e um dos coordenadores da pesquisa.

De acordo com ele, fornecedores generalistas vêm perdendo espaço para aqueles capazes de oferecer soluções especializadas e alcançar reconhecimento pela qualidade do trabalho. O movimento favorece empreendedores que conhecem bem um nicho e conseguem entregar com regularidade, agilidade e padrão profissional.

Por toda a cidade


Megaeventos alteram temporariamente a dinâmica econômica das cidades que os recebem. Competições esportivas, festivais, feiras, festas religiosas e celebrações regionais atraem visitantes e ampliam a demanda por uma variedade de serviços.

É o caso do Grande Prêmio São Paulo de Fórmula 1 e da Maratona do Rio de Janeiro; do Círio de Nazaré, em Belém (PA), e da Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém (PE); além do São João da Paraíba e da Oktoberfest de Blumenau (SC), entre outros.

Uma vantagem dessas programações recorrentes é a previsibilidade. Como as datas costumam ser anunciadas com pelo menos um ano de antecedência, empreendedores podem estudar o histórico de público, projetar a demanda, organizar estoques, contratar pessoal e negociar com fornecedores.

“O planejamento é o que transforma uma oportunidade em negócio”, alerta Vanda Mazza, docente da área de hospitalidade e eventos do Senac Aclimação, em São Paulo.

A preparação não interessa apenas às companhias diretamente envolvidas na organização. Hotéis, bares, restaurantes, serviços de transporte, agências de turismo, farmácias, lojas e opções de lazer também podem se beneficiar do aumento da circulação.

Antes de investir, porém, é preciso verificar se a oferta combina com o perfil dos visitantes. Pessoas mobilizadas por um artista, uma modalidade esportiva, uma celebração religiosa ou uma tradição regional tendem a valorizar produtos e experiências relacionados aos seus interesses.

Participar de uma programação com milhares de consumidores, portanto, não garante vendas. Uma oferta inadequada pode ter baixa aceitação e comprometer a imagem da marca. “O primeiro passo é responder a uma pergunta simples: ‘O meu produto faz sentido para essas pessoas?’”, orienta Marcelo Flores, professor do curso de pós-graduação em gestão de eventos, experiência e entretenimento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

O conhecimento do público também permite adaptar cardápio, linguagem, horários, meios de pagamento, embalagens e canais de atendimento. Para Flores, a participação deve ser planejada para gerar vínculos que continuem após a programação. “O evento é o começo da jornada, e o resultado depende do relacionamento construído depois dele, quando o visitante se transforma em cliente.”

Riscos que custam caro


Receber, em poucos dias, milhares de pessoas dispostas a consumir tende a impulsionar as vendas de marcas, produtos e serviços. Sem preparo, no entanto, essa movimentação pode comprometer o caixa e a reputação do empreendimento.

Um dos erros mais comuns é calcular mal a demanda. Estoque insuficiente provoca perda de vendas e frustração entre consumidores. O excesso, por outro lado, aumenta o risco de encalhe, desperdício e falta de recursos para pagar fornecedores e outras despesas.

“O principal requisito para que um pequeno negócio consiga aproveitar as oportunidades geradas por grandes eventos é oferecer um serviço de excelência, com qualidade e profissionalismo”, considera Soares, do Sebrae. “Não há como competir sem entregar aquilo que foi contratado com eficiência, confiabilidade e compromisso.”

Atrasos no recebimento de mercadorias e dificuldades de reposição também prejudicam os resultados, podendo deixar a operação desabastecida justamente nos horários de maior movimento. “Quem deseja entrar num evento deve estudar as edições anteriores para entender a logística necessária”, diz Mazza, do Senac.

Essa avaliação inclui acessos, horários de carga e descarga, distância dos fornecedores, necessidade de armazenamento e tempo de reposição. Também é importante prever alternativas para problemas de transporte, conexão à internet, fornecimento de energia e funcionamento dos meios de pagamento.

Outro desafio é formar corretamente o preço. “Muitos empreendedores subestimam custos como taxas de participação, transporte, montagem da estrutura, consumo de energia, hospedagem e comissões, o que pode reduzir ou até eliminar a margem de lucro”, observa a docente.

Prejuízo à vista

■ Falta de planejamento
■ Precificação inadequada
■ Custos fixos elevados
■ Equipe despreparada
■ Erros de logística
■ Falhas de internet e das maquininhas de cartão
■ Furtos de mercadorias e equipamentos
■ Concorrência intensa
■ Chuva, calor extremo e outros fatores climáticos
■ Cancelamento da programação

 — Foto: Ilustração: Getty Images
— Foto: Ilustração: Getty Images

A venda não termina na saída

O fim da programação não deve encerrar a relação entre a marca e o consumidor. Limitar a participação às vendas realizadas no local significa desperdiçar contatos, informações e possibilidade de novas compras.

“O evento deve ser entendido como o início da jornada do cliente, e não como o fim dela”, diz Rodrigo Pezzotta, sócio-fundador e líder de estratégia e relacionamento com clientes da consultoria Bunch Marketing & Growth. Na avaliação dele, esse é um momento favorável para criar conexão e reunir dados que permitam personalizar a comunicação.

Cadastros, QR Codes, programas de benefícios e experiências interativas podem ajudar nessa captação, desde que o consumidor saiba como suas informações serão utilizadas e concorde com isso. “É quando a marca tem a maior oportunidade de criar conexão e alimentar sua base de dados com informações valiosas para personalizar a comunicação e desenvolver ações de fidelização, incentivando novas visitas ou compras”, afirma.

Com ela organizada, o empreendedor pode estruturar campanhas de pós-venda, oferecer cupons, produzir conteúdo relacionado à vivência e criar programas de fidelidade. A comunicação deve ser rápida e relevante, sem excesso de mensagens ou ofertas genéricas.

Segundo Flores, da ESPM, o período mais favorável para retomar o contato se estende por até 60 dias, quando a experiência ainda permanece viva na memória. “O evento termina, mas a reputação que ele constrói por conta do bom relacionamento pode permanecer por muitos anos.”

Quem fatura com os megaeventos?

Quem fatura com os megaeventos — Foto: Ilustração: Getty Images
Quem fatura com os megaeventos — Foto: Ilustração: Getty Images

ORGANIZADORES
Responsáveis por planejamento, coordenação, produção, gestão e execução. Articulam contratantes, fornecedores, infraestrutura e público.
■ Congressos e feiras
■ Competições esportivas
■ Festivais musicais
■ Festas regionais
■ Experiências híbridas e virtuais

FORNECEDORES OFICIAIS
Oferecem insumos, equipamentos, tecnologia e serviços especializados necessários à realização da programação.
■ Montagem de estandes
■ Cenografia
■ Palcos e arquibancadas
■ Equipamentos de som
■ Iluminação e painéis de LED
■ Internet dedicada
■ Segurança

EXPOSITORES
Alugam espaços para apresentar produtos e serviços, testar ideias, divulgar a marca e manter contato direto com potenciais compradores.
■ Empresas de diferentes portes
■ Micro e pequenos empreendimentos
■ Profissionais da economia criativa
■ Instituições públicas
■ Organizações do terceiro setor
■ Universidades

NEGÓCIOS DO ENTORNO
Não integram necessariamente a programação oficial, mas se beneficiam do aumento da circulação de pessoas na cidade ou na região.
■ Hotéis, pousadas, resorts, flats e hospedagens temporárias
■ Bares, restaurantes, cafeterias, padarias, doçarias e food trucks
■ Shopping centers e comércio de rua
■ Lojas de roupas, calçados, livros e cosméticos
■ Táxis, motoristas de aplicativo, locadoras e transporte executivo
■ Companhias aéreas

TURISMO RECEPTIVO
Recebe visitantes, organiza deslocamentos e oferece experiências ligadas à cultura e aos atrativos do destino.
■ Agências de viagens
■ Guias de turismo
■ City tours
■ Passeios históricos
■ Turismo gastronômico
■ Turismo religioso
■ Museus e centros culturais
■ Casas noturnas e opções de lazer

DELIVERY E CONVENIÊNCIA
A concentração de visitantes, expositores, equipes técnicas, artistas e prestadores aumenta a procura por refeições e itens de uso cotidiano.
■ Entrega de refeições e produtos de conveniência
■ Mercados
■ Farmácias
■ Empresas de motofrete
■ Startups de logística de última milha
Fonte: Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC Brasil)

MÚSICA – NO EMBALO DOS SUCESSOS

Festival Psica - Belém (PA) — Foto: Divulgação
Festival Psica – Belém (PA) — Foto: Divulgação

Muito antes de o artista subir ao palco, a movimentação começa. Fãs viajam, ocupam hotéis, frequentam bares e restaurantes, usam serviços de transporte e consomem em diferentes pontos da cidade. Em apresentações de grande porte, esse fluxo pode se estender por vários dias e beneficiar uma ampla rede de empreendedores.

Entre os principais festivais realizados no país estão Rock in Rio, no Rio de Janeiro; Lollapalooza Brasil e The Town, em São Paulo; João Rock, em Ribeirão Preto (SP); e Afropunk Brasil, em Salvador (BA).

Diferentemente do que ocorre em bienais e feiras, em que a compra costuma fazer parte do objetivo principal da visita, o público dessas atrações está concentrado sobretudo na experiência e no entretenimento. Isso não elimina as possibilidades comerciais, mas exige que produtos e serviços estejam integrados à jornada do fã.

“Existe um universo inteiro de negócios que funciona nos bastidores dos festivais musicais”, afirma Clementino, da ABEOC Brasil. A cadeia inclui plataformas de venda de ingressos e fornecedores de serviços como iluminação, sonorização, segurança, atendimento médico, controle de acesso e meios eletrônicos de pagamento.

Alimentação e bebidas também ganham relevância, sobretudo nos intervalos entre as apresentações. Como a procura se concentra em períodos curtos, os fornecedores precisam dimensionar estoque, equipe e capacidade de atendimento para evitar filas, atrasos e perda de vendas. Nesse cenário, rapidez e organização são tão importantes quanto a qualidade do que é oferecido.

RITMO DE VENDAS

AGILIDADE - Nazaré Reis leva a culinária paraense do restaurante As Negonas a festivais e dobra a equipe para atender aos picos de consumo — Foto: Márcio Nagano
AGILIDADE – Nazaré Reis leva a culinária paraense do restaurante As Negonas a festivais e dobra a equipe para atender aos picos de consumo — Foto: Márcio Nagano

Em um fim de semana movimentado, o restaurante As Negonas, em Belém (PA), pode faturar até R$ 5 mil. Em apenas um dia de festival, a receita já chegou a R$ 28 mil. Para alcançar esse resultado, Nazaré Reis, 48 anos, combina pratos da culinária paraense com uma operação preparada para atender centenas de pessoas em poucos minutos.

A empreendedora participa de shows e festivais realizados na capital paraense, entre eles o Psica, que reúne mais de 100 mil pessoas durante três dias no Estádio Olímpico do Pará, o Mangueirão. A programação já recebeu nomes como Jorge Aragão, Luedji Luna, Mano Brown, Marina Sena e Martinho da Vila.

Mais do que elevar as vendas, essas apresentações ajudaram a tornar o negócio conhecido fora de seu endereço habitual. “Elas abriram muitas portas, e as pessoas começaram a nos olhar como referência da culinária local”, afirma.

O restaurante foi inaugurado em 2019, em sociedade com a irmã, Roseana Batista, que morreu em janeiro deste ano, aos 46. Após a perda, a empresária decidiu manter a operação e continuar apostando nas grandes programações musicais como vitrine para a marca.

O maior desafio nos festivais são os intervalos entre as apresentações. Nesses momentos, centenas de pessoas procuram o estande ao mesmo tempo e esperam ser atendidas rapidamente para não perder o próximo show. Para que as filas sejam reduzidas, os pratos são preparados com antecedência e aquecidos na hora de servir. A equipe, formada por 15 pessoas, dobra de tamanho nessas ocasiões. A estratégia ajuda a acelerar o atendimento. “Mesmo pagando 30% do faturamento durante o evento para a organização, vale a pena”, diz.

O abastecimento também exige atenção. Para evitar a falta de itens como a maniçoba, prato típico paraense preparado com folhas de mandioca cozidas por vários dias e carnes, ela mantém motoristas disponíveis para buscar reposições no estabelecimento durante a programação. Assim, consegue ajustar o estoque conforme o movimento do público.

Para Reis, o resultado depende não apenas da comida. “As pessoas buscam os pratos, mas também querem ter boas experiências e um ótimo atendimento.”

ESPORTE – DE OLHO NO DESEMPENHO

Corrida Outlet Premium - Itupeva (SP) — Foto: Divulgação
Corrida Outlet Premium – Itupeva (SP) — Foto: Divulgação

Competições esportivas reúnem dois públicos com comportamentos distintos: atletas concentrados em desempenho e espectadores atraídos pela experiência. Entender essa diferença é essencial para definir produtos e estratégias de ativação.

Quem participa de maratonas e provas de ciclismo, automobilismo e outras modalidades costuma valorizar alimentação equilibrada, hidratação, roupas técnicas e soluções voltadas à recuperação muscular. Ofertas alinhadas às práticas tendem a encontrar mais espaço do que itens distantes das necessidades dos competidores. “Eventos esportivos estão em alta, mobilizam as cidades e são excelentes oportunidades para o empreendedor expor sua marca”, diz Mazza, do Senac.

A antecedência do calendário também favorece a preparação. Como as inscrições começam meses antes das provas, é possível estimar a demanda, dimensionar estoques e equipes e planejar ações como degustações, distribuição de brindes e demonstrações de produtos.

Já o público que acompanha as disputas busca entretenimento, identificação com atletas e equipes e participação na atmosfera da competição. As marcas podem aproveitar esse envolvimento para ampliar a visibilidade, oferecer experiências e comercializar itens licenciados, como bonés e camisetas.

O contato direto também ajuda a entender a reação dos clientes. Para Soares, do Sebrae, essas ocasiões permitem reunir informações para a evolução da oferta. “Elas possibilitam aperfeiçoar produtos, serviços e processos, refinar o atendimento e desenvolver soluções ainda mais alinhadas às necessidades do mercado.”

CORRIDA POR ESPAÇO

DEGUSTAÇÃO - André Lee leva as bebidas prebióticas da Wondr a corridas de rua para apresentar o produto e ouvir os consumidores — Foto: Rogério Albuquerque
DEGUSTAÇÃO – André Lee leva as bebidas prebióticas da Wondr a corridas de rua para apresentar o produto e ouvir os consumidores — Foto: Rogério Albuquerque

Distribuir bebidas em corridas de rua tornou-se uma das principais estratégias da Wondr para ganhar visibilidade e se aproximar do público. Criada em 2024 pelo economista André Lee, 29 anos, produz refrigerantes prebióticos e aposta no contato com praticantes de atividade física para apresentar a marca.

“Desde o início da criação da empresa, eu sabia que teria que investir em eventos esportivos e fazer ativações da marca”, diz o empreendedor. “São as oportunidades ideais para essas pessoas provarem o produto e darem feedback.”

As bebidas contêm ingredientes que favorecem as bactérias benéficas do intestino. O portfólio reúne os sabores maracujá com morango e maçã verde. Uma terceira opção, de perfil mais cítrico, está em desenvolvimento a partir das sugestões recebidas nessas ações.

A startup já patrocinou competições que reuniram mais de 3 mil participantes. Uma delas foi promovida pelo Outlet Premium, em Itupeva (SP), em novembro do ano passado. Lee montou um ponto de hidratação, distribuiu brindes e acompanhou o público antes, durante e depois do percurso.

Na ocasião, dividiu espaço com companhias como Nike, Outback e Starbucks. Segundo ele, a presença de empresas consolidadas aumenta a exigência sobre os patrocinadores menores. “Elas sobem a régua de exigência do evento” e geram mais visibilidade, afirma.

A Wondr não paga para instalar os pontos de degustação. Em contrapartida, fornece as bebidas oferecidas ao público, o que reduz o custo de exposição.

A participação exige uma logística cuidadosa. É preciso calcular a quantidade de latas e garantir que todas estejam geladas durante a programação. Os produtos são transportados no carro do fundador e armazenados em recipientes com gelo. A operação fica a cargo de uma equipe de quatro pessoas.

O retorno é medido em quatro frentes: experimentação, fortalecimento da marca, engajamento e geração de novos negócios. A análise considera o número de pessoas que provaram a bebida, os comentários recebidos, o crescimento nas redes sociais, o volume de interações e as parcerias surgidas posteriormente. Na avaliação de Lee, quando a ação amplia a lembrança e abre novas oportunidades, “cada centavo investido nesse evento valeu a pena”.

A companhia fabrica 60 mil latas por mês e pretende elevar esse volume para 300 mil. Além das corridas, já participou da São Paulo Fashion Week, patrocina grupos de corredores e negocia sua entrada no circuito Track&Field Run Series.

FÉ – DEVOÇÃO QUE MOVIMENTA

Círio de Nazaré - Belém (PA) — Foto: Filipe Bispo / Fotoarena
Círio de Nazaré – Belém (PA) — Foto: Filipe Bispo / Fotoarena

Grandes celebrações religiosas mobilizam cidades inteiras. Hotéis lotam, restaurantes ampliam equipes, serviços de transporte ganham demanda e artesãos encontram interessados em produtos ligados à devoção e à cultura local. O desafio é aproveitar esse fluxo sem desrespeitar o caráter espiritual da ocasião.

Aparecida (SP), Belém (PA) e Juazeiro do Norte (CE) estão entre os destinos que recebem multidões ao longo do ano. Nessas manifestações, o entretenimento ocupa papel secundário: o visitante é movido pela fé e pela participação em ritos coletivos.

Essa motivação exige uma abordagem diferente da adotada em festivais ou competições esportivas. Comunicação muito comercial, preços oportunistas e estratégias agressivas podem provocar rejeição. “Empreender em um evento religioso não diminui a fé, pois é uma forma de evangelizar pelo trabalho, pela forma como o atendimento é feito e pela honestidade”, diz Sérgio Oliva Reis, diretor-secretário da Diretoria da Festa de Nazaré.

Imagens, terços, velas, roupas, alimentos típicos e peças artesanais ajudam o visitante a expressar sua crença ou registrar a experiência. “As festas religiosas estimulam o consumo pelo significado e raramente pelo impulso”, afirma.

Entre as manifestações de maior impacto está o Círio de Nazaré, realizado há mais de 200 anos em Belém. A procissão principal de 2025 reuniu cerca de 2,6 milhões de pessoas, enquanto a festividade movimentou cerca de R$ 1,2 bilhão. “O turista permanece sete dias na cidade movimentando hotéis, restaurantes, o setor de transporte, prestadores de serviços e artesãos”, segundo o diretor-secretário. “Para muitos empreendedores, o evento representa até 60% da renda anual.”

Em outros destinos, a devoção também preserva tradições e cria fontes de renda ligadas à identidade regional. O resultado depende de uma atuação que respeite a experiência do visitante.

PEÇAS COM SIGNIFICADO

DEVOÇÃO - Acenet Andrade e as artesãs do Flores Mãe Santíssima criam peças com materiais regionais e concentram metade do faturamento anual no Círio de Nazaré — Foto: Márcio Nagano
DEVOÇÃO – Acenet Andrade e as artesãs do Flores Mãe Santíssima criam peças com materiais regionais e concentram metade do faturamento anual no Círio de Nazaré — Foto: Márcio Nagano

Meses antes do Círio de Nazaré, as sete artesãs do coletivo Flores Mãe Santíssima, da Região Metropolitana de Belém (PA), já começam a preparar as coleções que serão vendidas durante a celebração. O período concentra a maior demanda do ano e exige planejamento para desenvolver produtos, reunir matéria-prima e organizar a produção.

O grupo cria peças especialmente para a festividade, usando materiais da região – folhas, fibras, sementes, tecidos de algodão e tintas naturais. As referências locais aparecem em artigos de decoração e lembranças ligados à tradição paraense.

“Nosso faturamento durante as festividades chega a 50% em relação ao ano todo”, afirma Acenet Andrade, 43 anos, uma das fundadoras. “Supera até mesmo datas tradicionais como Natal e Dia das Mães.”

Há quatro anos, o coletivo participa de uma feira realizada por meio de edital do Sebrae no Parque Urbano Belém Porto Futuro. O local recebe grande circulação de visitantes por ficar próximo ao ponto de partida de uma das procissões fluviais da programação.

A seleção exige o lançamento de produtos que valorizam a tradição do Círio. Para ocupar um espaço oficial, cada artesão paga uma taxa de R$ 500. “O nosso diferencial é a criatividade”, diz a empreendedora.

Para alcançar consumidores com diferentes orçamentos, elas oferecem desde lembranças mais acessíveis até peças elaboradas para decoração. Muitos artigos são produzidos em pequena escala ou em versões únicas, característica que amplia seu valor simbólico.

TRADIÇÃO – RAÍZES QUE GERAM RENDA

Festival Folclórico de Parintins - Parintins (AM) — Foto: SECOM/Divulgação
Festival Folclórico de Parintins – Parintins (AM) — Foto: SECOM/Divulgação

Por algumas semanas, receitas, músicas, roupas e símbolos regionais ocupam ruas e centros de celebração. A circulação beneficia artesãos, ambulantes, pousadas, restaurantes, músicos e prestadores de serviços. Para micro e pequenos negócios, o potencial está em oferecer produtos conectados à cultura local e se preparar para uma demanda concentrada.

Festejos como a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos (SP), o Festival Folclórico de Parintins (AM), a Oktoberfest Blumenau (SC) e o São João de Campina Grande (PB) e de Caruaru (PE) atraem visitantes interessados nos costumes e na história de cada destino. “Cada região tem sua própria cultura de consumo, e quem organiza ou vende em eventos precisa entender esse comportamento”, afirma Flores, da ESPM.

Esse conhecimento ajuda a definir cardápio, portfólio, linguagem e preços. Camisetas, canecas, lenços, bordados, peças artesanais e comidas típicas ganham espaço quando traduzem referências reconhecidas pelo público.

A operação, porém, pode ser mais complexa longe de capitais e metrópoles. Fornecedores vindos de cidades vizinhas elevam custos e riscos de atraso. “Em locais fora dos grandes centros, a falta de mão de obra qualificada é evidente, e o empreendedor precisa estar preparado para enfrentá-la”, diz. Distâncias maiores e estrutura limitada exigem calcular estoques, transporte, armazenamento e equipe, além de prever alternativas para reposições e imprevistos.

Para se destacar, não basta reproduzir símbolos conhecidos: qualidade, procedência e coerência com a cultura regional também influenciam a escolha.

NAS CORES DOS BOIS

EQUILÍBRIO - Ester Almeida criou na Q’Boi produtos para as torcidas do Caprichoso e do Garantido e concentra mais de 60% da receita em junho — Foto: Michel Amazonas
EQUILÍBRIO – Ester Almeida criou na Q’Boi produtos para as torcidas do Caprichoso e do Garantido e concentra mais de 60% da receita em junho — Foto: Michel Amazonas

Em Parintins (AM), escolher entre azul e vermelho vai muito além de uma preferência de cor. A rivalidade entre os bois Caprichoso e Garantido influencia o consumo durante o festival e levou Ester Almeida, 57 anos, a dividir a Q’Boi entre as duas agremiações.

Fundada em 1996, a loja trabalha com artigos oficiais e licenciados da celebração. De um lado, reúne camisas, xícaras, mochilas, squeezes e chaveiros do Caprichoso; do outro, oferece versões nas cores e com os símbolos do Garantido. “Os torcedores são apaixonados e a forma de encontrar o equilíbrio foi criar produtos para os dois lados”, diz a empreendedora.

A estratégia evita que a identificação com apenas um dos bois limite as vendas. “Os produtos oficiais representam 80% do faturamento anual, e os 20% restantes vêm daqueles que têm temática da Floresta Amazônica”, afirma.

Mais de 60% da receita se concentra em junho, quando Parintins recebe mais de 100 mil visitantes para acompanhar as apresentações no Bumbódromo. Nesse período, a economia local movimenta mais de R$ 200 milhões.

Uma das criações de maior destaque surgiu em um momento difícil. Em 2021, após a morte do marido, Joaquim Lima, e com o estabelecimento fechado por causa da pandemia, a artesã criou duas pelúcias inspiradas no Caprichoso e no Garantido para presentear o neto, Lucas Figueiredo, hoje com 8 anos. Batizados de Baby Bois, os personagens conquistaram moradores e turistas. Atualmente, são vendidas 2,8 mil unidades por ano, e a versão maior custa R$ 215. “Graças a esse trabalho, a Q’Boi é considerada um patrimônio da cidade”, comemora.

COMUNIDADES – PÚBLICO CATIVO

FLIP - Paraty (RJ) — Foto: Nathã de Lima
FLIP – Paraty (RJ) — Foto: Nathã de Lima

Livros, games, cultura pop, gastronomia e estilos de vida mobilizam públicos com interesses definidos. Esses encontros reúnem consumidores atentos às novidades e dispostos a gastar com artigos relacionados ao que valorizam.

“É um campo muito fértil não só para vender produtos, testá-los e validá-los diante de um público específico”, afirma Otávio Juliato, CCO da Omelete Company, criadora da Comic Con Experience (CCXP).

A lógica se aplica a diferentes segmentos. Feiras literárias aproximam editoras, autores e leitores; festivais gastronômicos permitem apresentar receitas e lançamentos; convenções de games abrem espaço para itens licenciados e criações autorais; encontros ligados a causas valorizam empresas alinhadas aos princípios das comunidades.

Por conhecerem bem os temas, esses consumidores identificam ofertas genéricas ou incoerentes. O empreendedor precisa dominar referências, linguagem e hábitos de compra, além de garantir qualidade e procedência.

A conexão emocional também influencia. Parte do público se organiza para adquirir edições especiais, colecionáveis ou disponíveis apenas nessas ocasiões. Na CCXP, por exemplo, “o tíquete médio de consumo é de R$ 980, cinco vezes o do Natal”, afirma Juliato.

Criadores independentes e microempresas podem se destacar com trabalhos autorais ou personalizados. “Muitos empreendedores começaram pequenos e hoje migraram para ativações e patrocínios maiores.”

O vínculo continua após a programação. Consumidores engajados acompanham lançamentos e recomendam itens, o que pode gerar vendas e ampliar a reputação da marca.

ENTRE LIVROS E LEITORES

CONEXÃO - Vagner Amaro (na foto) e Francisco Jorge levam a editora Malê a feiras literárias para ouvir os leitores e aperfeiçoar o catálogo — Foto: Nathã de Lima
CONEXÃO – Vagner Amaro (na foto) e Francisco Jorge levam a editora Malê a feiras literárias para ouvir os leitores e aperfeiçoar o catálogo — Foto: Nathã de Lima

Feiras literárias podem cumprir funções distintas. Algumas ampliam a visibilidade e fortalecem relacionamentos; outras geram vendas diretas e margem de lucro. Para a Editora Malê, especializada em autores negros, entender essas diferenças é parte da estratégia.

Criada em 2015 por Francisco Jorge, 46 anos, e Vagner Amaro, 49, a empresa participa desses encontros desde 2017. Entre eles estão a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, e a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Embora tenham a literatura em comum, cada uma exige uma abordagem própria.

“O principal atrativo da Flip são os debates literários, e ela não gera retorno direto em vendas suficiente para cobrir os custos”, diz Amaro. “Já nas bienais, o público comparece com o objetivo de comprar livros, e a margem de lucro gira em torno de 30%.”

Durante a Flip, a empresa mantém a Casa Malê, espaço com lançamentos e mesas de discussão. A iniciativa amplia a visibilidade da marca e favorece contatos com escritores, leitores e instituições.

“Nossa equipe observa atentamente os comentários dos leitores, o comportamento das crianças conversando com os pais e aquilo que o público procura e que ainda não publicamos”, afirma Amaro. “Esse contato fornece informações valiosas para o desenvolvimento do nosso catálogo.”

As feiras respondem por cerca de 20% do faturamento e geram parcerias com escolas, bibliotecas, livrarias e organizações culturais. Para manter o relacionamento, a Malê cadastra os compradores e envia informações sobre lançamentos, atividades e promoções. Assim, uma venda pontual pode levar a novas compras e a um vínculo contínuo com os leitores.

Fonte: PEGN