Dia do Empreendedor: fazer a diferença no mundo é motivação para 75,9% dos novos donos de negócios

Levantamento do Sebrae e da Anegepe revela que gerar impacto positivo está entre as motivações para tirar ideia do papel. Dia do Empreendedor e da Micro e Pequena Empresa é comemorado nesta segunda-feira (5/10)

Gerar impacto positivo está entre as possíveis motivações para empreender. Foi o que inspirou a criação da Ki Amor, que desenvolve roupas sob medida para pessoas com deficiência; da BioSpin, que combina nanotecnologia e biodiversidade amazônica no desenvolvimento de curativos e cosméticos; e da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) – Numiã Kurá, que preserva tradições ancestrais e gera renda por meio do artesanato.

De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), 75,9% dos empreendedores iniciais brasileiros de 18 a 64 anos apontam o desejo de fazer a diferença no mundo como uma das razões para abrir um negócio. A pesquisa foi realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pela Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (Anegepe).

Rodrigo Soares, presidente do Sebrae Nacional, afirma que o propósito pode contribuir para a longevidade dos negócios quando vem acompanhado de planejamento. Segundo ele, as empresas “criadas para aproveitar oportunidades de mercado ou gerar impacto positivo costumam reunir condições mais favoráveis para um crescimento sustentável”.

A seguir, veja três exemplos de empreendimentos que transformaram propósito em negócio:

Moda inclusiva e sob medida

A trajetória da Ki Amor começou em 2020, quando Josimary de Souza pediu demissão do emprego em uma confecção após sua filha receber o diagnóstico de Síndrome de West, condição neurológica rara que exige cuidados contínuos. Para garantir a renda familiar, Souza vendeu o carro e a moto da família, obtendo R$ 20 mil para fundar a empresa em 2021, em Ilhota (SC), inicialmente focada na costura de pijamas infantis. “Foi um período bem conturbado”, relata.

No ano seguinte, a empreendedora percebeu a dificuldade de encontrar peças de vestuário adequadas para a filha acomodar equipamentos médicos sem precisar rasgar as roupas. Ao compartilhar soluções com outras famílias em situações semelhantes, ela decidiu reposicionar o negócio para a moda inclusiva e sob medida para crianças e adultos. “Compreendi que existia uma demanda real e urgente que precisava de atenção”, afirma.

Josimary de Souza, da Ki Amor, trocou a loja online pelo atendimento via whatsapp para personalizar cada encomenda — Foto: Bárbarha Borges
Josimary de Souza, da Ki Amor, trocou a loja online pelo atendimento via whatsapp para personalizar cada encomenda — Foto: Bárbarha Borges

As peças da Ki Amor são confeccionadas em tecidos de algodão e elastano para garantir flexibilidade e conforto. Em 2025, a empresa registrou faturamento de R$ 78 mil, mantendo uma produção mensal entre 80 e 110 itens e tíquete médio em torno de R$ 300. Para atender às demandas específicas dos clientes, o modelo de vendas foi adaptado para o atendimento direto via WhatsApp, migrando a confecção para um ateliê próprio. “As mães queriam adaptações específicas, mas a peça já estava pronta no estoque. Hoje, faço de acordo com a necessidade de cada cliente”, explica.

Para consolidar o crescimento da marca, a empreendedora investiu na construção de um ateliê em um terreno próximo à sua residência. O objetivo é aumentar a capacidade produtiva e viabilizar a contratação de uma equipe de colaboradores no médio prazo.

Nanotecnologia e valorização da Amazônia

Fundada em 2023 em Manaus (AM), a BioSpin nasceu com o propósito de transformar pesquisas científicas em soluções tecnológicas para a sociedade. Idealizada por Andrey Marcos Pinho da Silva, doutor em ciência e engenharia de materiais, a startup atua como uma plataforma de nanotecnologia que converte recursos naturais da biodiversidade amazônica em ativos de alto valor agregado. “A BioSpin veio da minha motivação enquanto empreendedor científico. Iniciou a partir da minha pesquisa de doutorado”, relata Silva.

A empresa estrutura sua atuação no desenvolvimento de nanofibras bioativas aplicadas à saúde e aos cosméticos. Seu portfólio inclui o Nanofiberdressing, um curativo biodegradável em película ultrafina voltado ao tratamento de feridas complexas, como o pé diabético, e a Nanoemulsão BioSpin, um sérum regenerativo composto por óleos de copaíba, pracaxi, castanha-do-brasil e extrato de cumaru. “Tinha essa motivação de transformar essa base científica em produtos inovadores”, pontua.

Andrey Marcos Pinho da Silva idealizou BioSpin a partir da sua pesquisa de doutorado na UFSC — Foto: Divulgação
Andrey Marcos Pinho da Silva idealizou BioSpin a partir da sua pesquisa de doutorado na UFSC — Foto: Divulgação

Entre 2024 e 2025, a BioSpin captou R$ 190 mil em recursos para a maturação de suas tecnologias. O sérum regenerativo é comercializado localmente por R$ 99, com produção de 100 unidades mensais enquanto a empresa estrutura seu e-commerce. Já o curativo avançado passa por fases de validação clínica com pacientes para estruturação da base regulatória, com preço final estimado entre R$ 60 e R$ 70, visando diminuir custos hospitalares e índices de amputações.

Recentemente, a BioSpin se destacou como finalista no Hackathon de Inovação do Sistema Único de Saúde (SUS) e figurou entre as três selecionadas no programa “Sua Ideia Vale 1 Milhão”, criado pela GBR Componentes da Amazônia em parceria com a Venture Hub Manaus. Além disso, a empresa avança na prospecção de projetos de pesquisa e desenvolvimento pelo modelo Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII) para viabilizar o escalonamento e a validação tecnológica de suas nanofibras no mercado.

Preservação cultural e autonomia indígena

A Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) – Numiã Kurá foi criada em 1987, em Manaus (AM), com o propósito de acolher mulheres e jovens indígenas expostas a situações de vulnerabilidade e violência ao deixarem suas comunidades. A presidente da instituição, Clarice Tukano, explica que a associação transformou realidades ao oferecer capacitação política, cultural e geração de renda. “A Amarn surge como uma possibilidade para esse cenário de injustiça. A associação vai atuar na potencialização das mulheres por meio da geração de renda social e formação política e cultural”, ressalta.

Atualmente integrada por mais de 70 mulheres indígenas, a Numiã Kurá confecciona itens artesanais como brincos, colares, pulseiras, artigos decorativos e vestuários a partir de fibras naturais. As peças incorporam grafismos e simbolismos ancestrais, como o cesto Ayahuasca. As artesãs mantêm uma produção média de 200 itens mensais, com preços a partir de R$ 8. As criações já foram apresentadas na Semana de Moda de Nova York, nos Estados Unidos.

Assembleia da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro — Foto: Divulgaçã
Assembleia da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro — Foto: Divulgaçã

A remuneração das integrantes é calculada com base no volume de peças produzidas, utilizando fichas técnicas que consideram o tempo de confecção e os insumos empregados. As peças são comercializadas na sede da associação, na loja virtual e sob encomenda para compradores do Brasil e de países como a Alemanha. “Quem compra nossas peças está abraçando e apoiando a nossa causa”, diz.

Além do impacto econômico, a Numiã Kurá atua na preservação da memória e dos direitos indígenas, mantendo uma escola gratuita que ensina a língua e a cultura Tukano para mais de 35 alunos.

3 passos para transformar uma boa ideia em negócio

Para os empreendedores que buscam estruturar um negócio com propósito e viabilidade econômica, especialistas ouvidos por PEGN destacam passos fundamentais de validação e planejamento. Entre eles:

1. Focar no problema e na sustentabilidade financeira

Letícia Menegon, coordenadora da Base (incubadora de negócios e eixo de apoio ao empreendedorismo) da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), enfatiza que o impacto social precisa estar atrelado a um modelo econômico viável. A especialista orienta investigar o problema com potenciais clientes e testar o modelo antes de aportar investimentos elevados.

“Nenhum impacto dura se o negócio não conseguir sobreviver economicamente. E nenhum negócio de impacto se diferencia de fato se gerar lucro apenas sem uma transformação mensurável”, afirma. Ela reforça ainda que “os melhores negócios evoluem continuamente porque o empreendedor está apaixonado pelo problema, não pela solução”.

2. Buscar qualificação e gestão rigorosa

Rodrigo Soares, presidente do Sebrae Nacional, aponta que a transição de um sonho para uma empresa duradoura exige planejamento, análise de mercado e capacitação comportamental, recomendando programas de desenvolvimento de competências. “Ainda que motivado pela realização de um sonho ou pelo bem-estar social, o empreendedor precisa transformar a atividade corporativa em algo rentável”, pontua.

3. Testar a disposição de pagamento do mercado

Filipe Brandão, estrategista de negócios e CEO da Spotlight Comunicação, ressalta que o teste primário de qualquer ideia deve ser a verificação da existência de demanda real pagante. Brandão orienta realizar testes práticos e observar o comportamento dos clientes antes de constituir formalidades burocráticas ou estruturas físicas. “O primeiro teste não deve ser abrir um CNPJ, criar uma marca ou investir em estrutura. O primeiro teste é entender se existe um problema real sendo resolvido e se alguém estaria disposto a pagar pela solução”, orienta.

Fonte: PEGN