Foco na experiência de compra ajuda o empreendedor a elevar o tíquete médio e evitar perda de margem de lucro na data
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A preparação para o Dia das Crianças 2026, celebrado em 12 de outubro, exige planejamento e estratégia comercial antecipada de pequenos empreendedores no comércio e nos serviços. Para aproveitar o potencial da data sem comprometer a margem de lucro com descontos excessivos, o líder de operação regional do Sebrae em São José dos Campos (SP), Rafael de Souza, indica que o planejamento ideal deve começar entre 30 e 60 dias antes da celebração.
Embora o período prévio seja o cenário recomendado para organizar o estoque e alinhar a comunicação, Souza aponta que empreendedores que deixaram a organização para a reta final ainda conseguem capturar a demanda represada.
O caminho é focar nos produtos de maior giro, analisar o histórico recente de vendas e adotar estoques mínimos combinados com acordos de reposição rápida junto aos fornecedores. “A pergunta que o empreendedor deve se fazer não é apenas o que vai vender no Dia das Crianças, mas como pode transformar essa data em uma oportunidade para vender mais”, afirma Souza.
Um dos equívocos mais comuns no período é a concessão de descontos sem a avaliação precisa dos custos e das margens de contribuição. De acordo com o consultor do Sebrae, a redução de preços sem controle financeiro pode comprometer o fluxo de caixa, criando cenários em que o aumento de faturamento não se converte em lucro real. A orientação é priorizar a montagem de kits e combos que agrupem itens complementares, agregando valor percebido à compra e aumentando o tíquete médio do estabelecimento.
A data é uma das mais relevantes no varejo brasileiro. Dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) apontam que o comércio faturou 6,7% a mais na semana do Dia das Crianças de 2025 em comparação ao mesmo período do ano anterior, com alta de 6% no varejo físico e 9,7% no e-commerce.
A busca por experiências impulsionou o segmento de Turismo & Transporte, que cresceu 11,8%, enquanto setores tradicionais como Recreação & Lazer (6%), Vestuário (3,7%), Lojas de Brinquedos (2,7%) e Supermercados (8,4%) também avançaram, sustentados por comemorações familiares e viagens curtas.
A complexidade da decisão de compra na data exige também atenção ao perfil do consumidor. Ao contrário do Dia das Mães ou do Dia dos Namorados, em que quem compra conhece diretamente o presenteado, a dinâmica do Dia das Crianças envolve múltiplos atores no processo.
O professor do Hub de Trade Marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Felipe Wasserman, explica que a lógica de consumo se divide entre o desejo do público infantil e a validação do adulto pagador — que frequentemente inclui tios, avós e padrinhos sem convívio diário com os hábitos da criança.
“No Dia das Crianças, a criança escolhe, o adulto paga e ninguém quer errar”, diz Wasserman.
Nesse cenário, pequenos negócios encontram vantagem competitiva na curadoria e na agilidade do atendimento, espaços onde os grandes marketplaces enfrentam maior dificuldade de atuação.
De acordo com o docente da ESPM, a estratégia de comunicação precisa atuar em duas frentes simultâneas: uma camada emocional voltada a encantar a criança e uma camada racional destinada a tranquilizar o comprador adulto sobre fatores como segurança, durabilidade, valor educativo e adequação à faixa etária.
Para estruturar a oferta de forma eficiente, a recomendação é organizar a vitrine física e o catálogo digital por idade e faixas de preço. A apresentação clara reduz o esforço do cliente no momento da escolha. “Pequeno negócio não ganha no preço. Ganha na curadoria”, afirma Wasserman. Ele ressalta ainda que concessões drásticas de preço em outubro podem habituar a base de clientes a postergar consumo até as promoções da Black Friday, em novembro.
O alinhamento entre as expectativas dos adultos e os desejos do público infantil é igualmente central na construção das campanhas. A também professora do Hub de Trade Marketing da ESPM, Karine Karam, aponta que o ponto de equilíbrio para o varejo reside em oferecer itens que combinem o apelo lúdico buscado pelas crianças a diferenciais perceptíveis aos responsáveis, como durabilidade e estímulo ao desenvolvimento.
A apresentação e a embalagem dos produtos exercem papel direto na percepção de valor e na disposição do consumidor em gastar. “Quando o presente é percebido como especial — seja por exclusividade, personalização ou significado emocional —, a disposição de gastar aumenta significativamente”, explica Karam.
A docente orienta os comerciantes a investirem na narrativa das peças, em embalagens decoradas e em atendimentos personalizados em vez de focar a atração apenas em abatimentos de preço. Karam alerta que ofertas em excesso podem gerar confusão no cliente, levantando dúvidas sobre a qualidade dos itens e reduzindo o apelo afetivo da data.
Checklist: como preparar sua empresa para o Dia das Crianças
Com base nas orientações dos especialistas, confira os passos práticos para organizar a operação do seu negócio:
- Faça o diagnóstico do estoque: analise as vendas do mesmo período no ano anterior e os itens mais procurados nos últimos meses para definir a compra de mercadorias.
- Trabalhe com reposição rápida: acerte prazos curtos de entrega com fornecedores em vez de imobilizar capital em grandes volumes de estoque parado.
- Calcule a margem de lucro: levante os custos variáveis e a margem de contribuição de cada produto antes de definir preços ou lançar promoções.
- Monte combos estratégicos: crie kits por faixa etária ou combinações de produtos e serviços para elevar o tíquete médio sem recorrer a descontos diretos.
- Organize a comunicação por idade e preço: estruture a vitrine física e o catálogo digital com opções claras de presentes ordenadas por faixa etária e valor máximo de gasto.
- Atue em duas camadas de comunicação: combine apelo visual e lúdico para a criança com informações sobre segurança, durabilidade e caráter pedagógico para o adulto.
- Capriche na apresentação: invista em embalagens diferenciadas, cartões personalizados e opções de embrulho para presente para aumentar o valor percebido do produto.
- Segmente o contato no WhatsApp: acione a base existente de clientes que já compraram itens infantis com ofertas direcionadas e atendimento rápido.
- Ajuste os canais digitais: use as redes sociais para demonstrar o uso real dos produtos e mantenha informações claras sobre prazos de entrega, horários de funcionamento no feriado e formas de pagamento.