O empreendedor mudou, mas será que o sistema também?

Por Carla Elage, Head de Eventos da GZM

Em qualquer que seja o negócio, seja ele grande, pequeno ou micro, atrás de cada número, de cada gráfico e de cada estatística existe a história de alguém.

Uma mulher que começou fazendo bolos em casa e vendia para a vizinhança. A filha criou uma marca, colocou o negócio no Instagram e as vendas cresceram. Quando pergunto se ela é empreendedora, talvez responda que não: “Eu só vendo bolo.”

Mas ela compra, produz, vende, administra fluxo de caixa e já tem outras pessoas trabalhando com ela.

Ela pode não se reconhecer como empreendedora. Mas a economia já a reconhece como tal.

Um país que quer empreender

O 2º Fórum Sicredi Empreender colocou justamente esse Brasil no centro da discussão: um país no qual trabalho, renda e empreendedorismo assumem novas configurações.

Renato Meirelles conhece esse universo há décadas. Presidente do Instituto Locomotiva, fundador do Data Favela e pesquisador de comportamento, consumo e opinião pública dos brasileiros, apresentou números que ajudam a dimensionar essa transformação.

O Brasil tem 29,8 milhões de empreendedores, entre trabalhadores por conta própria e empregadores. 48% deles são da classe C, cerca de 14,3 milhões de pessoas. Esses números ganham ainda mais significado no fórum promovido pelo Sicredi. A instituição financeira que é uma cooperativa superou, em julho de 2026, 1,6 milhão de associados pessoa jurídica e R$ 109 bilhões em sua carteira de crédito PJ. Micro, pequenas e médias empresas representam cerca de 90% dessa carteira, 28% das pequenas empresas brasileiras são associadas ao Sicredi.

Trabalho não é mais sinônimo de emprego, em um país aonde durante muito tempo, ter carteira assinada representava para milhões de brasileiros segurança, pertencimento e ascensão social, mas isso está mudando. O “bico” pode começar por necessidade e se transformar em oportunidade. Uma pessoa que buscava apenas complementar a renda pode descobrir que aquela atividade gera mais do que seu emprego formal. E aquilo que nasceu como alternativa passa a ser uma escolha.

Por isso, separar empreendedorismo por necessidade e empreendedorismo por oportunidade já não seja suficiente para explicar o Brasil atual. Uma coisa pode se transformar na outra. Há ainda outro elemento entrando nessa equação: ser dono do próprio tempo. Prosperidade já não significa apenas ganhar mais. Para muitos brasileiros, significa também autonomia para decidir quando trabalhar, estar com a família e organizar a própria vida.

Ser dono do próprio tempo começa a fazer parte daquilo que entendemos como prosperidade.

Renda não conta toda a história, duas pessoas que ganhem R$ 7 mil por mês, podem ter realidades econômicas completamente diferentes. Uma mora em casa própria, tem estrutura familiar consolidada e reserva financeira. Outra paga aluguel, prestação de equipamentos, custos crescentes de produção e ainda remunera alguém que a ajude no negócio. Na planilha, parecem iguais, mas não possuem a mesma capacidade de assumir riscos.

Olhar apenas para renda, CNPJ ou faturamento pode ser insuficiente para compreender quem está do outro lado e isso importa para quem desenha crédito, seguros, serviços financeiros e políticas destinadas aos pequenos negócios.

Ter o privilégio de poder errar

Foi nesse ponto que a palestra me atingiu particularmente, o que está em disputa não é apenas a chance de acertar. É o privilégio de poder errar, e eu acredito profundamente no erro. Ele faz parte do caminho que nos leva ao acerto. Quem empreende precisa testar, corrigir, aprender, mudar e tentar novamente. Mas existe uma grande diferença entre errar para aprender e errar sem ter condições de continuar.

Acredito muito na construção passo a passo, degrau a degrau. Não se trata de eliminar o risco, mas sim de criar condições para experimentar, corrigir a rota, aprender e avançar. Aprender a errar pequeno para aprender rápido e assim aumentar a capacidade de acertar.

Para quem tem patrimônio, reserva, crédito e uma rede de proteção, uma decisão equivocada pode representar uma lição, as vezes cara. Mas para quem colocou praticamente tudo o que tinha no negócio, o mesmo erro pode representar seu fim. E talvez essa seja uma das faces menos discutidas da desigualdade brasileira.

E quando o CPF financia o CNPJ

Aqui surge uma das contradições mais interessantes levantadas por Meirelles. Ensinamos ao pequeno empreendedor que ele deve formalizar sua empresa, abrir um CNPJ, separar rigorosamente as finanças pessoais das empresariais e profissionalizar sua gestão. E isso está correto. Mas então, o que acontece do outro lado do balcão?

A maior parte dos empreendedores constroem durante anos uma história financeira como pessoas físicas. Têm conta bancária, cartão, movimentação, pagamentos e relacionamento registrados no CPF. E quando abrem uma empresa, o CNPJ começa praticamente do zero. E pode acontecer algo paradoxal: o empreendedor formaliza o negócio, mas encontra no CPF uma resposta de crédito mais acessível ou mais ágil do que o CNPJ que acabou de criar.

E isso não é apenas uma percepção. Uma pesquisa do Sebrae mostrou que, em 2022, entre os pequenos empresários que obtiveram crédito, 61% conseguiram como pessoa física e 39% como pessoa jurídica. Entre os MEIs, a diferença era ainda maior: 73% como PF e apenas 27% como PJ.

E então surge uma pergunta inevitável: qual comportamento estamos, de fato, incentivando nesse círculo difícil de romper?

Ele compra matéria-prima com o cartão pessoal. Faz um investimento no negócio utilizando crédito obtido como pessoa física. Depois pedimos que não misture as contas.

Como dizer ao empreendedor qual é a maneira correta de administrar sua empresa se o próprio sistema torna a maneira correta mais difícil de executar?

O caminho deveria ser fazer com que a formalização trouxesse benefícios concretos e perceptíveis: análise capaz de considerar também a trajetória daquele empreendedor, menos burocracia, respostas mais rápidas, produtos adequados ao tamanho e ao estágio do negócio e construção progressiva de histórico de crédito empresarial.

Formalizar precisa representar mais do que uma obrigação, precisa valer a pena.

Educação financeira ou falta de dinheiro?

A palestra trouxe outra provocação que merece reflexão. Algo muito discutido é a falta de educação financeira do brasileiro. Existe, evidentemente, espaço para ampliar a educação financeira no país. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar um problema de insuficiência de renda em uma suposta incapacidade individual de administrar dinheiro.

A dificuldade de poupar nem sempre significa falta de educação financeira. Às vezes significa simplesmente falta de dinheiro.

E esse olhar muda a conversa.

Existe gente por trás da planilha

Talvez essa tenha sido, para mim, a grande mensagem do Fórum Sicredi Empreender. Nunca tivemos tanta tecnologia para analisar comportamento, renda, crédito e risco. E a IA ampliará ainda mais essa capacidade. Mas existe uma pergunta fundamental:

Quem é a pessoa que existe por trás desse dado?

O Brasil empreendedor não cabe apenas nas categorias que criamos para classificá-lo. É a boleira que ainda diz que “só vende bolo”. É quem começou fazendo um bico e descobriu sua principal fonte de renda. É quem transformou parte da casa em estrutura para seu negócio. É também quem mistura CPF e CNPJ, não necessariamente porque desconhece os princípios de gestão, mas porque foi dessa forma que conseguiu financiar sua atividade.

São histórias diferentes reunidas sob a mesma palavra: empreendedor.

Compreender cada história, é um dos grandes desafios e também uma das grandes oportunidades para as instituições financeiras, empresas e formuladores de políticas públicas.

Incentivar o empreendedorismo não significa ensinar alguém a abrir uma empresa ou oferecer uma linha de crédito. Significa criar condições para que essas pessoas possam crescer, experimentar, corrigir rotas e continuar. Significa democratizar não apenas a oportunidade de acertar, mas também o direito de errar.

Artigo originalmente publicado na Gazeta Mercantil Digital

Fonte: Startupi