Resolver um problema cotidiano, como escapar do trânsito, transformou Uri Levine em um dos empreendedores mais influentes do ecossistema global de startups. Cofundador do Waze, aplicativo adquirido pelo Google por mais de US$ 1 bilhão, e do Moovit, plataforma de mobilidade comprada pela Intel por US$ 900 milhões, o empreendedor israelense passou as últimas duas décadas repetindo um mesmo método: identificar problemas reais, validar rapidamente uma solução e escalar empresas capazes de atender milhões de usuários.
Depois de fundar e investir em dezenas de startups, Levine decidiu organizar essa experiência em livros, como Fall in Love with the Problem, Not the Solution (Apaixone-se pela solução, não pelo problema). Agora, leva esse conhecimento ao Brasil com o lançamento da Uri Levine Startup Academy, plataforma voltada para formar empreendedores. A escolha do país, segundo ele, está ligada ao papel que o mercado brasileiro desempenhou no crescimento do Waze e do Moovit e ao amadurecimento do ecossistema nacional de inovação.
Em entrevista à Forbes Money, Levine compartilha os princípios que considera indispensáveis para quem pretende construir uma empresa de alto crescimento. São ideias que desafiam alguns dos conselhos mais difundidos entre empreendedores – da obsessão por levantar investimentos ao foco exagerado em crescimento acelerado. Para ele, antes de tudo, é preciso resolver um problema que realmente importe.
1. Apaixone-se pelo problema, não pela solução
A principal filosofia de Levine é também o título de seu livro mais conhecido. Segundo ele, empreendedores costumam falhar porque se apaixonam pela tecnologia ou pela ideia, quando deveriam dedicar toda a atenção ao problema do cliente.
“O mercado não sente dor. As pessoas sentem.”
2. Existe apenas uma métrica que importa no começo
Enquanto muitas startups acompanham crescimento, faturamento ou downloads, Levine diz que, no início, só existe um indicador relevante: retenção.
“Se o cliente não volta, você não criou valor.”
3. O valor não está na sua cabeça
Outro erro frequente, afirma, é acreditar que basta uma boa ideia. É o usuário quem determina se a solução realmente resolve um problema
“O valor não está na sua cabeça. Está na cabeça do cliente.”
4. Não venda antes de o produto estar pronto
Na visão dele, antecipar a expansão comercial costuma desperdiçar recursos. Antes de buscar clientes, o fundador precisa garantir que o produto realmente resolve um problema e gera retenção.
“Se você tentar vender antes de o produto estar pronto, vai fracassar.”
Levine explica que, mesmo que uma empresa consiga conquistar clientes, eles não permanecerão se o produto ainda não entregar valor. “Mesmo que consiga clientes, eles vão embora. É inútil trazê-los se você vai perdê-los de qualquer maneira.”
5. Espere fracassar
Levine diz que construir uma startup é “uma longa montanha-russa de fracassos”. Por isso, considera o erro parte inevitável do processo.
“Se você tem medo de fracassar, já fracassou.”
6. Nunca desista – a menos que o problema desapareça
Construir uma startup significa enfrentar sucessivas dificuldades, mas, para Levine, desistir não faz parte do papel do fundador.
“Não desistir é o comportamento mais importante de um fundador de startup no começo.”
Segundo ele, existe apenas uma situação em que abandonar o negócio faz sentido.
“Só existe uma boa razão para desistir: quando o problema desaparece.” Ele cita como exemplo uma de suas primeiras empresas, que perdeu espaço quando o BlackBerry tornou comum o acesso ao e-mail pelo celular.
7. Monte uma equipe que impeça você de desistir
Levine atribui boa parte da resiliência de uma startup às pessoas que escolhem embarcar na jornada.
“Se você construir a equipe certa, nunca vai desistir por causa deles. E eles nunca vão desistir por sua causa.”
Na avaliação dele, uma equipe comprometida é um dos principais fatores para superar os momentos mais difíceis da construção de uma empresa.
8. IA mudou completamente a forma de construir empresas
Na avaliação de Levine, desenvolver software nunca foi tão barato e rápido.
“Hoje eu faria o Waze com 20% das pessoas e em 20% do tempo.”
9. O diferencial deixou de ser construir tecnologia
Na era da inteligência artificial, Levine acredita que desenvolver um produto deixou de ser a principal barreira para criar uma startup.
“O desafio não é mais construir um produto. O desafio agora é levá-lo ao mercado.”
Segundo ele, ferramentas de IA reduziram drasticamente o tempo e o custo para desenvolver software. Por isso, a vantagem competitiva passa a estar na distribuição, na aquisição de usuários e na construção de bases de dados próprias. “Se o ChatGPT, o Gemini ou o Claude conseguem fazer o que sua empresa faz, você vai perder. Eles já têm os clientes.”
10. Aprenda antes de empreender
Depois de mais de duas décadas criando startups, Levine acredita que muitos erros poderiam ser evitados se fundadores tivessem acesso às experiências de quem já percorreu esse caminho.
“No começo, tudo parece igualmente importante. Mas não é.”
Para ele, saber o que priorizar é um dos maiores diferenciais de um empreendedor experiente. “Não desperdice esforço, recursos e tempo com aquilo que não é importante agora.”
É justamente essa experiência que o fundador do Waze pretende compartilhar por meio de seus livros e da Startup Academy, iniciativa que estreia no Brasil com aulas online e programas presenciais voltados à formação de novos empreendedores.