IA vira ‘sócia’ de empreendedores e está mudando a forma de criar empresas

A tecnologia pode ser parceira do fundador – do início à maturidade do negócio

A inteligência artificial já não serve apenas para sugerir texto ou responder a perguntas. Em muitas empresas, esses sistemas testam as premissas de um modelo de negócio, estimam o tamanho de um mercado e fazem projeções financeiras. Trata-se de uma nova fase da tecnologia na gestão do empreendimento.

Para Carlos Magno, coordenador de ecossistemas de inovação do FIEMG Lab, hub da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a IA deixou de ser só um software para se tornar uma camada de inteligência que “substitui” o braço humano especializado. “Hoje, um fundador consegue usar a tecnologia como um sócio estratégico para validar modelos, estruturar o financeiro e até criar um código inicial de um produto sem ter um CTO [diretor de tecnologia] ao lado. Ela apoia os pilares de estratégia e de atendimento, permitindo que ele foque no que é essencial: a visão do negócio.”

Foi o que fez o norte-americano Aaron Sneed, 41 anos, quando fundou sua empresa, em 2023, em West Melbourne, na Flórida (EUA). Ele é dono da Does (Defense Operations & Engineering Solutions), voltada a sistemas de defesa e manufatura. Como solo founder (fundador independente), conta que utilizou agentes de IA desde o primeiro dia para agilizar processos como planejamento e coordenação de grande volume de documentos.

Esse recurso, segundo ele, ajudou a reduzir a sobrecarga administrativa e a manter a consistência do trabalho, mesmo desempenhando múltiplas funções. “Eu teria construído a empresa sem esses agentes? Sim, mas teria levado mais tempo e custado mais. A IA fundamentou a base, o que me capacitou para tomar decisões, avaliar riscos e fazer verificações à medida que a complexidade aumentava. Porque o ponto crucial é que o humano ainda detém o julgamento, a responsabilidade e a aprovação”, afirmou a PEGN.

 — Foto: Ilustração: PEGN
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Motor de competitividade

Sem dúvida, a tecnologia tem papel decisivo para que esses fundadores tirem projetos do campo das ideias. “A inteligência artificial está democratizando a capacidade de empreender”, diz Guilherme Pereira, diretor de inovação da plataforma de educação corporativa Alura + Fiap. Ele aponta que, antes, montar um negócio do zero exigia contratar um time mínimo viável: um designer, um analista de dados, alguém para cuidar de contratos e outro profissional responsável pelo marketing. “Hoje, ferramentas de IA cobrem boa parte dessas funções de forma acessível, muitas vezes gratuitamente. O que demandava uma equipe de quatro a seis pessoas para a fase inicial agora pode ser tocado por uma pessoa bem instrumentada”, avalia.

Esse uso mais operacional da IA, no entanto, tende a mudar conforme a empresa amadurece. Se no início é utilizada principalmente para garantir sobrevivência e agilizar processos, à medida que a operação cresce seu papel passa a ser outro. “Entender essa mudança é o que determina se será possível escalar ou se vai estagnar”, afirma Leo Candido, gerente de transformação com IA na Artefact, consultoria global especializada em dados e inteligência artificial.

Com o avanço da empresa, as demandas se multiplicam, os processos ainda são informais e o fundador se torna gargalo de quase tudo. Nesse momento, a tecnologia entra para organizar e padronizar rotinas, liberando o time para pensar estrategicamente e tomar melhores decisões. “Cada vez mais, vemos empresas sendo desenhadas com IA como core [base da operação], com processos, decisões e fluxos de trabalho organizados ao redor de um núcleo agêntico [com agentes] que executa tarefas, analisa dados e apoia o time humano”, diz Gustavo Araujo, cofundador e chief AI officer da Distrito, plataforma que conecta empresas e startups e produz inteligência de mercado sobre inovação e tecnologia.

Em estágios mais maduros, segundo Candido, a inteligência artificial deixa de ter apenas um papel operacional e passa a atuar também como motor de competitividade. “Negócios maduros usam IA para antecipar comportamento de cliente, otimizar precificação em tempo real, mapear concorrentes, personalizar experiência em escala, entre outras possibilidades. É uma fase de menos feeling [intuição ou percepção construída pela experiência] e mais decisões baseadas em dados”, pontua.

No começo, a tecnologia

 — Foto: Ilustração: PEGN
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Na criação de uma empresa por uma única pessoa, a inteligência artificial tem assumido um papel central desde o início. O avanço dos chamados solo founders não é por acaso: a tecnologia permite reduzir custos iniciais e acelerar a validação de ideias. “O empreendedor tende a se tornar mais estratégico e menos operacional porque parte da execução pode ser apoiada pela inteligência artificial”, considera Raphael Farinazzo, COO da PM3, escola de negócios digitais.

As aplicações são diversas e começam ainda na fase de planejamento, quando a tecnologia pode atuar quase como uma “sócia” do negócio. Entre os usos mais comuns estão análises estratégicas, como SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças), avaliação de mercado, definição de posicionamento competitivo e projeções financeiras. “Em vez de semanas de pesquisa, o empreendedor leva algumas horas”, diz Araujo, da Distrito.

Candido, da Artefact, indica ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini para mapear concorrentes, estimar tamanho de mercado e montar um modelo financeiro simplificado com projeções de receita e ponto de equilíbrio. E exemplifica: “O MyMap.AI gera SWOT em minutos. O Sebrae Canvas tem IA integrada que preenche os nove blocos do Business Model Canvas e, o melhor, é grátis”.

Criação de branding, proposta de valor e definição do público-alvo também podem contar com o auxílio da IA. “Com ferramentas como Adobe Firefly ou Midjouney para geração de imagens, ChatGPT para naming [dar nome] e copywriting [textos persuasivos para usar no marketing], e Canvas com IA integrada para design, um empreendedor consegue construir uma identidade visual consistente e profissional em poucos dias”, afirma Pereira, da Alura.

A IA permite também validação rápida de produtos e serviços antes de fazer um investimento mais alto, observa Farinazzo, da PM3. “É possível criar versões iniciais de um produto digital, páginas de apresentação e campanhas de teste em pouco tempo. Com isso, dá para medir interesse real antes de investir pesado em desenvolvimento ou estoques”, explica.

Ainda sobre agilizar a validação, Pereira, da Alura, explica que a tecnologia ajuda a gerar um questionário de pesquisa qualitativa em minutos, simular personas, criar landing page de pré-lançamento com copywriting otimizado e analisar os resultados de cliques e cadastros para inferir demanda real. Ele indica ferramentas como Maze, Typeform e até o ChatGPT: “Use como cliente simulado, em que você descreve seu produto e pede críticas e objeções realistas”.

Na fase de estruturação do negócio, elas também auxiliam na montagem de uma base de informações sobre a empresa que facilita futuras contratações, suporte ao pitch (apresentação curta e persuasiva) e à captação de investimentos.

As vantagens de recorrer à inteligência artificial para criar um negócio são reais. “Pesquisas indicam que startups fundadas após a disponibilidade de modelos como ChatGPT-3 alcançaram capital semente, em média, 50 dias antes do que startups anteriores, e com equipes significativamente menores, com entre três e quatro colaboradores, ante oito funcionários”, afirma Kadígia Faccin, professora e pesquisadora de gestão da inovação & governança na Fundação Dom Cabral (FDC).

O desafio de aprender

Se a inteligência artificial ajuda a criar e otimizar negócios de tantas maneiras, o que explica muitos empreendedores ainda não fazerem uso de todo o seu potencial? Faccin afirma que a maturidade para lidar com essa solução ainda é baixa. Segundo ela, em uma pesquisa exploratória da FDC conduzida com fundadores de empresas familiares, 59,4% apontaram a carência de expertise como principal risco percebido. Outros 28,1% citaram lacunas de conhecimento e capacitação como barreiras para ampliar a adoção da IA.

Para Cezar Taurion, estrategista e advisor de IA e CEO da consultoria Ananque, o receio ainda é um fator importante. Muitos temem criar dependência da tecnologia ou não compreender seu funcionamento. Também persiste a percepção equivocada de que a IA é cara ou complexa – já que muitas ferramentas hoje são acessíveis. O principal obstáculo, porém, costuma ser a falta de letramento em IA. “Sem compreender o que faz, suas limitações e como aplicá-la, ela vira algo abstrato. O desafio não é apenas adotá-la, mas desenvolver repertório para usá-la com critério, estratégia e responsabilidade.”

Humanos virtuais

A fronteira entre tecnologia e realidade é o motor da Umoja Infinity. A empresa desenvolve soluções baseadas em inteligência artificial humanizada, automação de processos e projetos voltados à representatividade. Entre os serviços estão sistemas de atendimento virtual personalizado – capazes de manter conversas naturais com clientes e encaminhar demandas a humanos quando necessário – e ferramentas de SDR, que automatizam etapas de pré-vendas, como qualificação de leads e gestão de agendas comerciais.

Fundada há um ano e meio em Magé (RJ) por Alder Lima, 43 anos, administrador, e Helan Matos, 36, bacharel em ciências matemáticas e da Terra, a startup hoje tem sede em São Paulo (SP), impulsionada pelos novos contratos que vêm surgindo. Para Lima, a IA foi decisiva desde o primeiro momento. “Começamos sozinhos. Eu vinha de uma empresa que quebrei, sem dinheiro nem investidores”, afirma.

No início, a dupla recorreu à tecnologia para estruturar o plano de negócios, sugerir o nome da empresa e definir cores para a identidade visual da marca. Depois, a IA passou a apoiar também a preparação de apresentações para investidores, agendamentos, gravações e atas de reuniões, além da automação e assinatura de contratos.

Com o avanço dos projetos, a operação deixou de depender apenas dos fundadores. “Chegou um momento em que nossos braços não eram suficientes. Até então éramos só nós e a IA, que fomos treinando e aprimorando, sempre atentos às questões éticas”, diz ele. Hoje, a empresa conta com oito colaboradores e planeja contratar mais dez até o meio do ano. “A IA é uma ferramenta de apoio às atividades, não para substituir o humano”, ressalta Matos.

O reforço no time acompanha o crescimento da carteira de clientes – a expectativa é alcançar faturamento de R$ 1,5 milhão neste ano. A Umoja tem se destacado pelos personagens de IA humanizados que desenvolve para diferentes projetos. Um exemplo é o Dr. Clima, criado para a plataforma Climáticos, da Universidade Zumbi dos Palmares, que aborda temas ambientais. Outro é Zani, da própria Umoja Infinity, que compartilha reflexões sobre feminismo e antirracismo em um perfil no Instagram, como se fosse uma pessoa real.

Copilota necessária

APOIO - Duda Franklin (à esq.) e Lynda Gomes, da Orby.co, usaram a IA para criar um equipamento de eletroestimulação não invasiva aplicado ao movimento — Foto: Juliana Frug
APOIO – Duda Franklin (à esq.) e Lynda Gomes, da Orby.co, usaram a IA para criar um equipamento de eletroestimulação não invasiva aplicado ao movimento — Foto: Juliana Frug

“A magia está no algoritmo, em entender o sinal fisiológico, processar a informação, gerar onda modulável que o neurônio entenda, ou seja, falar a linguagem dele.” A frase, dita com entusiasmo, é da biomédica e neurocientista Duda Franklin, 27 anos, que, com a artista visual Lynda Gomes, 24, fundou a Orby.co em 2022. A startup desenvolveu um dispositivo de eletroestimulação não invasiva aplicado ao movimento, capaz de orientar exercícios funcionais e monitorá-los em tempo real. A inteligência artificial foi usada como apoio em diferentes etapas de desenvolvimento do equipamento.

Na prática, ele pode ajudar pacientes com dor e com condições neurológicas que limitam movimentos, como as decorrentes de acidentes, acidente vascular cerebral (AVC) e Parkinson, além de pessoas interessadas em melhorar a performance na execução dos exercícios. “O objetivo é atender quem busca mais qualidade de vida”, afirma Gomes.

A tecnologia reabilitadora, complementa Franklin, pode acelerar a recuperação e oferecer aos profissionais de saúde, como médicos do esporte, fisiatras e fisioterapeutas, uma nova alternativa terapêutica. Segundo ela, já é possível observar resultados desde a primeira sessão.

O equipamento, que está na fase final de aprovação regulatória da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), deve começar a operar em meados deste ano. A meta das sócias é produzir 500 sistemas, o que pode resultar em contratos estimados em R$ 44 milhões.

Desde o início do projeto, a inteligência artificial foi uma aliada importante no processo de desenvolvimento. “Falando em engenharia real, quando se usa IA como copiloto, o aumento da produtividade do desenvolvedor é incrível. Dá para ir testando se faz sentido ou não, reduzindo muito o tempo de experimentação”, diz a neurocientista.

Gomes, que é responsável pelas áreas de administração e marketing, destaca que, embora a tecnologia ajude a organizar informações e apoiar decisões orientadas por dados, ela sempre foi usada como ferramenta de suporte para filtrar caminhos e embasar escolhas. Para as sócias, o mais importante é personalizar seu uso e nunca renunciar à criatividade.

Uma ferramenta, muitos papéis

 — Foto: Ilustração: PEGN
— Foto: Ilustração: PEGN

No começo, a tecnologia ajuda a tirar as ideias do papel, mas seu impacto se amplia à medida que o negócio ganha tração. Do desenvolvimento à maturidade, empresas vêm incorporando essas ferramentas à rotina e ampliando seu uso em diferentes frentes. Um indicativo desse movimento aparece no estudo Retorno do Investimento (ROI) em IA, realizado pelo National Research Group sob encomenda do Google Cloud e divulgado no segundo semestre do ano passado: 62% dos executivos no Brasil já utilizam agentes de inteligência artificial nas empresas que lideram.

Fernanda Jolo, gerente de engenharia de clientes de IA para a América Latina do Google Cloud, afirma que o avanço marca uma mudança de paradigma. Segundo ela, “é uma nova era nos negócios com a IA generativa, em que as organizações estão transitando de sistemas que apenas preveem ou criam para os que podem planejar, raciocinar e agir, sem necessidade de uma intervenção humana”.

Na prática, a incorporação dessas ferramentas ao dia a dia corporativo acelera processos e amplia a capacidade operacional das equipes. Ao assumir tarefas repetitivas, a tecnologia libera tempo para atividades mais estratégicas. “Os colaboradores devem compreender que a inteligência artificial funciona como aliada, para fazer a ‘parte chata’, e não para tomar seus lugares”, afirma Marco Carvalho, CEO da HeadOffice.ai.

Com o avanço da operação, o apoio também se estende a áreas sensíveis, como a comercial. Propostas passam a ser elaboradas com mais rapidez e consistência: “O empreendedor deve criar um template [modelo] com sua linguagem e pedir à IA que o adapte para cada cliente”, sugere Pereira, da Alura.

O atendimento automatizado é mais uma frente em que a tecnologia pode atuar ao longo de toda a jornada do negócio. Sempre que possível, vale investir em sistemas programados para agir de forma autônoma e tomar decisões com base em regras definidas pelo empreendedor. “Nesse caso, como os agentes inteligentes representam a empresa, precisam ter a voz dela, saber o que podem ou não falar e de que forma essa comunicação deve ser feita”, explica Carvalho.

Com critério

O CEO da HeadOffice.ai destaca ainda a diferença entre modelos mais básicos e esses sistemas mais avançados: “Para a primeira, você pergunta e ela responde. Não tem objetivo nem autonomia para devolver questões, ou seja, é passiva. Já a segunda – que recebe briefings, regras e todas as informações que interessam [ao negócio] – é treinada para responder perguntas como se fosse um profissional do time”.

À medida que a empresa cresce e passa a estruturar equipes, o suporte também se estende à área de recursos humanos. A tecnologia pode auxiliar na criação de descrições de vagas mais atrativas, na triagem de currículos, na preparação de entrevistas e nos processos de onboarding (integração de novos colaboradores). “Mas a decisão da contratação precisa ser humana. IA não faz leitura de valores, de cultura e do potencial de uma pessoa”, pondera Candido.

No campo da gestão, ferramentas voltadas ao planejamento estratégico ajudam na realização de pesquisas, benchmarketing e organização de roadmaps (roteiros), facilitando a visualização de metas e o ajuste das etapas de execução. Já nas áreas financeira e de marketing, contribuem para projeções, simulações de cenários, definição de preços, criação de conteúdo e testes de posicionamento.

A precificação dinâmica, que ajusta valores em tempo real conforme demanda e sazonalidade, é outro exemplo de aplicação possível, segundo o gerente da Artefact. A lógica vale para otimização de rotas, previsão de estoque e até avaliações mais subjetivas: “Dá para fazer análise de sentimento para monitorar o que os clientes falam sobre o negócio nas redes sociais, por exemplo”.

Com tantas possibilidades, o principal desafio passa a ser o uso responsável e estratégico dessas ferramentas. Mais do que substituir decisões, elas funcionam como apoio e orientação. A leitura, no entanto, continua sendo humana – cabe ao empreendedor interpretar os dados, ponderar cenários e incorporar o fator humano na definição dos próximos passos.

Economia de recursos

TRASFORMAÇÃO - Na Ryzí, que cria produtos a partir de couro reaproveitado, Luiza Mallmann usou IA para reposicionar o negócio — Foto: Juliana Frug
TRASFORMAÇÃO – Na Ryzí, que cria produtos a partir de couro reaproveitado, Luiza Mallmann usou IA para reposicionar o negócio — Foto: Juliana Frug

Quando decidiu reposicionar a Ryzí, empresa gaúcha criada em 2019 para produzir bolsas, Luiza Mallmann, 29 anos, apostou em um novo rumo: transformar o negócio em um projeto de design capaz de acompanhar o lifestyle da cliente em diferentes momentos. Quando completou cinco anos, o portfólio passou a incluir também acessórios, calçados e itens para casa e pets, ampliando a atuação e a complexidade da operação.

Essa transição teve um elemento central: o uso intensivo de inteligência artificial. Após um começo com recursos limitados, a nova fase passou a incorporar ferramentas digitais em diferentes etapas do processo criativo e produtivo. Com proposta autoral, trabalho em couro e design geométrico, o modelo prioriza o reaproveitamento de matéria-prima, um sistema que exige alto nível de precisão. “Sem ferramentas de IA, teria sido muito difícil desenvolver novidades. Elas nos ajudam desde atividades burocráticas, importantes para a equipe, até viabilizar a produção 100% upcycling”, diz.

O próprio desenho das peças permite ampliar esse uso dos materiais. Com cortes geométricos, o couro pode ser usado em fragmentos menores, reduzindo desperdícios, segundo a empreendedora. “Utilizamos 250 metros por mês que seriam descartados pela indústria. E produzo itens com design único – um nunca é igual a outro.”

A tecnologia também impacta custos e prazos. Testes de novos produtos, por exemplo, podem ser feitos em ambiente 3D, sem a necessidade de múltiplos protótipos físicos: “Quando preciso testar um design, consigo levá-lo direto para o digital, eliminando etapas de prototipagem, o que reduz despesas. Corto cerca de um mês no tempo e um terço do custo”.

No dia a dia, a IA se espalha por diversas frentes – da organização da agenda à gestão de estoque de couro, etapa crucial para o upcycling. Também são utilizadas ferramentas de inteligência comercial para análise de mercado, soluções de SEO para o e-commerce e sistemas de monitoramento de performance. “Com as peças prontas, às vezes fazemos campanhas inteiras com inteligência artificial, que gera imagens e modelos”, conta.

A empreendedora não divulga faturamento, mas trabalha com tíquete médio de R$ 2,1 mil. As vendas são feitas diretamente ao consumidor, pelo site e pela Farfetch, além do modelo B2B para multimarcas no Brasil, com cerca de 60 pontos de venda, e em Nova York (EUA).

Estratégia para escalar

Com apoio da IA, Marcelo Piazera antecipou a meta de 100 franquias da fórmula animal para 2025 – hoje são 115 unidades — Foto: Juliana Frug
Com apoio da IA, Marcelo Piazera antecipou a meta de 100 franquias da fórmula animal para 2025 – hoje são 115 unidades — Foto: Juliana Frug

A trajetória da Fórmula Animal ganhou velocidade com a incorporação de tecnologia ao longo do tempo, algo que não fazia parte do início da operação. Fundada em 2010, em Jaraguá do Sul (SC), por Marcelo Piazera, 43 anos, e Renata D’Aquino, 39, a empresa nasceu com uma proposta simples: ser “apenas uma farmácia [de manipulação] para pets”, combinando a experiência empreendedora dele com a formação em farmácia e a paixão por animais dela. Naquele momento, recursos baseados em IA ainda não estavam disponíveis.

Três anos depois, o negócio adotou o modelo de franquias e passou a ampliar sua presença de forma gradual. O salto veio com um plano mais ambicioso: “Em 2019, estruturamos um projeto para chegarmos a cem franquias em 2025, e veio a pandemia”, conta Piazera. Àquela altura, ferramentas digitais já apoiavam parte das operações, o que acelerou o processo – a meta foi atingida em três anos, e não em cinco. Segundo ele, esses recursos foram decisivos para estruturar contratações e capacitar equipes, preparando o terreno para a nova fase. Hoje, a rede soma 115 unidades franqueadas e projeta faturamento de R$ 150 milhões em 2026.

Com a estrutura mais robusta, a inteligência artificial passou a ocupar um papel estratégico. A empresa utiliza agentes personalizados para diferentes funções. A Bolota apoia o atendimento aos franqueados, agilizando o acesso a documentos, formulações, protocolos operacionais e materiais técnicos. A MiAU atua junto à equipe comercial, organizando agendas, reunindo informações sobre visitas e gerando insights sobre o perfil dos médicos veterinários. Já a Elefonte oferece suporte técnico, com orientações sobre formulações, sugestões de prescrição e referências científicas para esses profissionais.

Para o empreendedor, essas soluções são fundamentais para escalar o negócio. Ao organizar grandes volumes de informação, acelerar processos e ampliar o acesso ao conhecimento, a tecnologia fortalece a operação em diferentes frentes – das equipes internas aos franqueados e veterinários parceiros. “Não por acaso, a IA foi um dos focos da NRF [maior evento de varejo do mundo] deste ano. O empresário precisa dela para agir rapidamente, senão fica para trás. Claro que quem não usa também pode crescer, mas fará isso de forma mais lenta, restrita e custosa”, avalia.

Mão de obra digital

Softwares que utilizam IA automatizam tarefas repetitivas, analisam dados e aumentam a produtividade em diferentes áreas da empresa. Conheça algumas ferramentas:

  • Canva AI: Produz peças visuais, apresentações e posts; sugere layouts, propõe imagens e ajusta textos
  • ChatGPT e Claude: Atuam como apoio estratégico e operacional; realizam análises, revisam materiais e elaboram conteúdos
  • Claude Code: Auxilia na criação e revisão de código, apoiando o desenvolvimento de sistemas e automações
  • Descript e HubSpot AI: Desenvolvem conteúdo para marketing, como e-mails, posts e anúncios
  • Fireflies.ai e Otter.ai: Registram e transcrevem reuniões, organizando atas e ações
  • Gamma.app: Estrutura apresentações e documentos a partir de um briefing, com design automático
  • Google Analytics + IA: Monitora comportamento do usuário e conversões
  • HeadOffice.ai: Permite criar e gerenciar agentes de IA personalizados, automatizando processos e comunicação
  • Looker Studio (Google) + BigQuery: Plataforma de visualização de dados que, integrada ao BigQuery, viabiliza dashboards em tempo real
  • Lovable: Cria aplicativos web a partir de descrições, acelerando protótipos
  • Make, N8N, Zaia e Zapier: Conectam sistemas e automatizam fluxos, integrando ferramentas e tarefas
  • ManyChat e Tidio: Plataformas de chatbot para atendimento automatizado, qualificação de leads e suporte
  • Midjourney e Sora: Transformam descrições em imagens, usadas em campanhas e identidade visual
  • Notion AI: Apoia a organização e o planejamento, resumindo reuniões e estruturando processos
  • Perplexity.ai: Motor de busca com respostas fundamentadas em fontes verificadas
  • Power BI com Copilot e Tableau: Ferramentas de BI que permitem explorar dados em linguagem natural

Fontes: Guilherme Pereira, da Alura + FIAP Para Empresas; Gustavo Araujo, da Distrito; Leo Candido, da Artefact; e Raphael Farinazzo, da PM3

Perguntas certas, respostas certeiras

Para aproveitar melhor a inteligência artificial, é preciso saber formular os chamados prompts – os comandos ou instruções dados à ferramenta para obter respostas mais úteis e precisas. “Deve ter três elementos: contexto, tarefa e formato”, orienta Magno, do FIEMG Lab. “Quanto mais completo o briefing, mais qualificada tende a ser a resposta”, resume Faccin, da FDC. A seguir, veja exemplos de como fazer isso.

Validação de ideia
“Você é um mentor experiente de startups. Minha ideia de negócio é (descreva). Faça o papel de um crítico exigente e liste as cinco principais razões pelas quais essa ideia pode falhar. Em seguida, sugira como mitigar cada um desses riscos.”

Ação de nome e branding
“Preciso criar um nome para o meu negócio de (descreva o segmento). Os valores da marca são (liste). O público é (descreva). Crie dez sugestões de nome. Para cada um, explique o significado e por que se alinha ao posicionamento. Priorize nomes curtos, memoráveis e que possam funcionar como domínio de site.”

Análise de mercado
“Faça uma análise de mercado para (descreva o tipo de negócio) no Brasil, em (coloque o ano). Inclua: tamanho estimado do mercado, principais players, tendências de crescimento, barreiras de entrada e uma oportunidade de nicho que ainda não está sendo bem atendida. Cite fontes, quando possível.”

Criação de proposta comercial
“Sou (sua profissão/negócio). Preciso criar uma apresentação comercial para (tipo de cliente/empresa). O projeto envolve (descreva o escopo). Crie uma proposta completa com contexto do desafio do cliente, solução, metodologia de trabalho, entregáveis, cronograma e investimento. Justifique também por que somos a escolha certa.”

Planejamento de cenários
“Gere três cenários futuros diferentes, caso eu decida avançar com a criação de (cite o negócio), com investimento de (valor). Considere também a possível reação dos concorrentes. Elabore uma análise detalhada, dedicando pelo menos cem palavras a cada cenário. Seja o mais criativo possível, mas também realista.”

Resposta ao cliente
“Simule um cliente difícil reclamando de atraso na entrega e sugira uma resposta empática e resolutiva.”

Análise de documento
“Resuma este relatório de tendências de mercado (anexe o documento) e extraia os três insights mais relevantes para o varejo.”
Fontes: Carlos Magno, do FIEMG Lab; Guilherme Pereira, da Alura + FIAP Para Empresas; Kadígia Faccin, da Fundação Dom Cabral; e Leo Candido, da Artefact

Sinal amarelo

IA - A “sócia” que muda o jeito de criar empresas — Foto: Ilustração: PEGN
IA – A “sócia” que muda o jeito de criar empresas — Foto: Ilustração: PEGN

A inteligência artificial acelera decisões, mas também pode levar a erros difíceis de detectar. Por isso, antes de confiar plenamente nas respostas, é preciso acionar um estado de atenção: usar com senso crítico, validar informações e entender limites. Especialistas respondem, a seguir, às principais dúvidas sobre o uso da IA nos negócios.

Até que ponto dá para confiar nas respostas da IA?
“Este é o ponto mais preocupante quando empreendedores a adotam sem critério. Ela é um modelo de linguagem. É extraordinariamente boa em gerar texto plausível. Mas o plausível não significa correto”, afirma Candido, da Artefact. Segundo Farinazzo, da PM3, as respostas podem soar convincentes mesmo quando estão parcialmente erradas. “Se você parte de premissas equivocadas e ela as organiza bem, o erro fica mais sofisticado”, pondera.

Por que a IA pode “alucinar”?
“A IA pode ‘alucinar’, ou seja, inventar dados, citar pesquisas que não existem e afirmar fatos incorretos com total firmeza”, diz Candido. Isso ocorre porque o modelo completa padrões de linguagem, não verifica fatos. Um plano de negócio baseado em números incorretos pode levar a decisões equivocadas. Há também o viés de confirmação: “Se você pede para a IA validar sua ideia, ela tende a concordar. Por isso, pergunte explicitamente pelos pontos fracos, pelo que pode dar errado.”

Quais os riscos da dependência excessiva?
Apostar fichas demais na tecnologia amplia riscos. De acordo com Taurion, da Ananque, delegar tarefas críticas sem supervisão reduz o pensamento crítico. “É quando surge a ‘automação acrítica’, com decisões aceitas ‘porque o sistema sugeriu’. A IA pode amplificar vieses presentes nos dados, reforçar diagnósticos equivocados ou simplificar problemas complexos. Sem validação humana, ela não corrige contexto, nuance ou implicações éticas.”

A IA pode padronizar demais os negócios?
Utilizada sem critério, sim. “A IA, que prometia ampliar possibilidades, pode acabar estreitando caminhos. E aqui há uma ironia. A tecnologia que potencializa análise e velocidade pode, ao mesmo tempo, reduzir a diversidade estratégica. Se todos olham para os mesmos dashboards, simulam os mesmos cenários e seguem recomendações baseadas nos mesmos dados históricos, o espaço para intuição e visão crítica diminui. Em se tratando de estratégia, muitas vezes é justamente o olhar que não segue o manual que cria vantagem”, diz Faccin, da FDC.

Como equilibrar IA e decisão humana?
“O fator humano é essencial quando há responsabilidade legal ou financeira, quando a decisão envolve valores e relacionamentos, quando o contexto é único e não generalizável. Também quando a reputação está em jogo, como no caso de uma comunicação diante de crise, uma negociação delicada ou uma decisão sobre pessoas”, indica Candido. “Se tivesse de sugerir uma proporção: use IA para 70% da execução e reserve tempo e energia para os 30% que realmente definem o caráter do negócio. Não porque a IA não possa fazer mais. Mas porque esses 30% são o que vai diferenciar o seu negócio da concorrência que também utiliza essa tecnologia”, conclui.

Quais cuidados jurídicos são indispensáveis?
Dados sensíveis não devem ser inseridos de forma descuidada em ferramentas de IA. Ana Rios, advogada especialista em direito digital, explica que a LGPD (Lei nº 13.709/2018) regula o uso de dados pessoais no Brasil.

O risco surge quando há uso sem base legal ou reprodução de informações de terceiros sem autorização. As sanções podem incluir advertências, bloqueio de dados e multas de até 2% do faturamento (limitadas aR$ 50 milhões por infração). No campo autoral, a Lei nº 9.610/1998 protege obras intelectuais. Problemas ocorrem quando a IA reproduz conteúdos sem autorização ou cria materiais muito semelhantes a obras protegidas.

“A inteligência artificial pode acelerar muito a criação de novos negócios, mas não elimina a responsabilidade jurídica de quem utiliza essas ferramentas. Na prática, alguns cuidados são fundamentais, como evitar inserir dados pessoais ou sensíveis em ferramentas de IA; verificar a origem dos conteúdos gerados antes de utilizá-los comercialmente; além de ter atenção ao uso de materiais protegidos por direitos autorais”, resume Rios.

Fonte: Revista PEGN