De arenas a startups: como mulheres estão ganhando espaço na indústria do esporte

Enquanto o esporte se reorganiza e o dinheiro muda de lugar, empreendedoras avançam sobre novas frentes dessa indústria bilionária

Carla di Pierro (à dir.) e Tathiana Parmigiano criaram a consultoria Cada Uma é Uma, com foco em atletas mulheres
Carla di Pierro (à dir.) e Tathiana Parmigiano criaram a consultoria Cada Uma é Uma, com foco em atletas mulheres — Foto: Divulgação

O esporte entrou em uma nova fase de crescimento: o dinheiro deixou de se concentrar apenas nas arenas e se espalhou pelo ecossistema que o sustenta. Mudanças na audiência, no consumo e nas experiências ampliaram os espaços de atuação e elevaram o valor gerado na operação, na gestão, nos serviços e produtos que movem o negócio.

Essa reorganização abriu um novo mapa de oportunidades. Onde antes a receita dependia de bilheteria e patrocínios, avançam frentes ligadas a estruturação de ativos, monetização contínua da audiência, melhoria da experiência do público, uso de dados para tomada de decisão e desenvolvimento de soluções aplicáveis ao dia a dia de clubes, marcas, atletas e eventos. É nesse espaço, de inovação prática e execução, que empreendedoras vêm construindo empresas.

O tamanho do mercado ajuda a dimensionar esse movimento. No Brasil, o esporte representa 1,7% do produto interno bruto (PIB) e movimentou R$ 183 bilhões em 2023, segundo o estudo mais recente da consultoria EY. Longe de ser um nicho, trata-se de uma engrenagem que combina consumo, serviços, infraestrutura, tecnologia e investimento.

“E ainda está em consolidação”, observa Cacilda Mendes dos Santos Amaral, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretora de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Gestão do Esporte (Abragesp): processos seguem em ajuste, modelos amadurecem e há espaço para organizar o que hoje é fragmentado.

Nos clubes, a demanda por novas frentes já entrou na rotina de alguns e começa a crescer em outros. “Eu sempre me vi como esse elo de conexão de soluções”, diz Débora Saldanha, líder de inovação do Clube Atlético Mineiro. À frente da área, ela mantém contato com empresas e startups que apresentam projetos e trabalha para transformar propostas em aplicações concretas – sinal de que começa a crescer a procura por produtos e serviços capazes de resolver desafios operacionais, comerciais e de gestão.

Esse movimento também se reflete no perfil de quem atua no segmento. “Existe uma massa crítica de profissionais extremamente preparadas, com pós-graduação, mestrado e doutorado, e que representam o potencial de transformar o ecossistema”, avalia Renata Lopes, fundadora da sportech Mulheres do Esporte, especializada em dados, pesquisas e inteligência ESG. O desafio, para ela, é converter essa capacidade em soluções com proposta clara, retorno mensurável e tração no mercado.

Porque, no fim, a maior parte das oportunidades está no que sustenta a atuação por trás do placar. “Surgem na organização de ativos, na monetização da audiência, na profissionalização da gestão e na criação de soluções que, por exemplo, transformam calendário em receita recorrente”, pontua Bruna Botelho, CEO e fundadora da startup StadiumGo.

A seguir, conheça as frentes em que o esporte mais cresce, as barreiras que limitam a escala e as estratégias de quem transformou essas lacunas em novos mercados.

Barreiras de ingresso para elas

Legitimidade como porta de entrada
O acesso às primeiras conversas nem sempre é imediato. Antes de disputar orçamento, muitas mulheres precisam provar pertencimento a um setor historicamente masculino
Como driblam: constroem validação fora das estruturas tradicionais, com comunidades próprias, projetos-piloto pagos e programas de aceleração

Captação mais lenta e exigente
A chegada de capital não ocorre na mesma velocidade para todos. Elas relatam ciclos mais longos e maior exigência técnica, o que pressiona o caixa e o ritmo de expansão
Como driblam: diversificam fontes – leis de incentivo, investidores-anjo, corporate venture e contratos ligados a metas de ESG

Convencimento sobre mercados pouco reconhecidos
Iniciativas ligadas a saúde da atleta, experiência feminina ou novos públicos enfrentam o desafio de provar escala antes mesmo de vender
Como driblam: produzem dados próprios, testam pilotos e usam pré-vendas para demonstrar aderência

Negociação com maior carga relacional
Em um ambiente que mistura técnica e política, construir confiança institucional exige mais preparo e consistência
Como driblam: adotam posicionamento técnico claro e escopo bem delimitado, fortalecendo o histórico de entregas

Acesso desigual às redes de capital
O investimento ainda circula por redes de proximidade, em que a presença feminina é menor
Como driblam: recorrem a redes especializadas, fundos com tese em diversidade e programas estruturados de aceleração

Potencial de escala subestimado
Negócios liderados por mulheres são, por vezes, lidos como iniciativas de impacto social, e não como operações escaláveis
Como driblam: priorizam indicadores de receita, margem e crescimento, reforçando a replicabilidade do modelo

Como entrar nessa área

Partir de uma dor real
Soluções surgem de lacunas claras: gestão desorganizada, dados subutilizados, captação ineficiente ou experiência feminina pouco considerada. O ingresso é mais viável onde há necessidade de estruturação

Traduzir expertise em oferta
Formação não fecha contrato sozinha. É preciso transformar conhecimento em serviço ou solução com escopo, prazo e preço definidos

Definir o modelo de receita
O ciclo até o contrato pode ser longo. Combinar recorrência, projetos e incentivos reduz dependência e dá previsibilidade financeira

Dominar regras e mecanismos
Conhecer enquadramento jurídico, Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) e leis de incentivo evita improviso e aumenta a chance de aprovação de projetos

Validar antes de escalar
Pilotos, comunidades e contratos menores funcionam como prova de demanda e ajudam a ajustar produto, preço e posicionamento

Construir presença e reputação
No setor, visibilidade funciona como portfólio. Presença digital e histórico de entregas reforçam autoridade e confiança

Estruturar a empresa para crescer
Processos, contratos padronizados e marca própria permitem que o negócio vá além da figura da fundadora

Comprovar escala com indicadores
Receita recorrente, métricas de desempenho e clareza de retorno sustentam expansão e atraem novos contratos

O jogo além do jogo

Fontes: Deloitte/Beyond the billion-dollar barrier (2024/2025); EY/Efeito multiplicador do esporte na economia brasileira (2025); Federação Internacional de Futebol (Fifa); Kearney/From passion to profit: unlocking value in sports (2025); PwC/Sports Outlook (2024) — Foto: PEGN
Fontes: Deloitte/Beyond the billion-dollar barrier (2024/2025); EY/Efeito multiplicador do esporte na economia brasileira (2025); Federação Internacional de Futebol (Fifa); Kearney/From passion to profit: unlocking value in sports (2025); PwC/Sports Outlook (2024) — Foto: PEGN

Onde se concentra a receita
 games e novos formatos
– propriedade intelectual e matchday (venda de ingressos, alimentos, bebidas, produtos e serviços de hospitalidade)
– transmissão e streaming

Tendências que vão impactar esse placar
– crescimento do esporte feminino
– mudanças no comportamento dos fãs mais jovens
– novos formatos de competição, conteúdo e experiência

– US$ 2,35 bilhões foi a receita global do esporte feminino em 2025, após crescer de US$ 981 milhões em 2023 para US$ 1,88 bilhão em 2024 – 2,4 vezes em três anos

Fontes: Deloitte/Beyond the billion-dollar barrier (2024/2025); EY/Efeito multiplicador do esporte na economia brasileira (2025); Federação Internacional de Futebol (Fifa); Kearney/From passion to profit: unlocking value in sports (2025); PwC/Sports Outlook (2024) — Foto: PEGN
Fontes: Deloitte/Beyond the billion-dollar barrier (2024/2025); EY/Efeito multiplicador do esporte na economia brasileira (2025); Federação Internacional de Futebol (Fifa); Kearney/From passion to profit: unlocking value in sports (2025); PwC/Sports Outlook (2024) — Foto: PEGN

NO BRASIL
R$ 183,4 bilhões foi a participação do esporte na economia brasileira em 2023
– 1,7% do PIB

Onde o esporte já é negócio…
– artigos esportivos
– indústria
– práticas esportivas, entretenimento e experiências
– mídia e publicidade

… e onde existem mais oportunidades
– dados e performance
– educação esportiva
– gestão de carreira
– governança
– saúde feminina

O PRÓXIMO CAMPEONATO
em 2027 acontece a Copa do Mundo Feminina da FIFA, no Brasil

O que a competição destrava:
– aceleração de negócios no esporte feminino
– eventos, experiências e turismo esportivo
– investimentos em mídia e visibilidade
– patrocínios e ativações de marca

Fontes: Deloitte/Beyond the billion-dollar barrier (2024/2025); EY/Efeito multiplicador do esporte na economia brasileira (2025); Federação Internacional de Futebol (Fifa); Kearney/From passion to profit: unlocking value in sports (2025); PwC/Sports Outlook (2024)

Arquitetura de imagem e negócios de atletas

Campos de atuação
– Conexão comercial com marcas
– Monetização para além do contrato esportivo
– Planejamento de longo prazo e preparação para o pós-carreira
– Posicionamento e fortalecimento da marca pessoal

Oportunidades
Estrutura:
 O atleta passou a ser tratado como um ativo estratégico de influência e reputação. Negócios que estruturam posicionamento, narrativa e planejamento de longo prazo ampliam seu valor comercial
Receita: A monetização se diversificou: creator economy, palestras, licenciamento e projetos com marcas expandem as fontes de renda para além do contrato esportivo. Comissão, taxa fixa e projetos proprietários elevam margem e previsibilidade financeira
Capital: Profissionais do esporte disputam orçamento de marketing com influenciadores e criadores digitais. Estruturar audiência e posicionamento como alavanca comercial amplia o acesso a investimentos corporativos
Inovação: Audiência, engajamento e impacto tornaram-se ativos mensuráveis. Inteligência de dados e métricas fortalecem o poder de barganha e profissionalizam o setor

Desafios
Estrutura: 
O modelo ainda é fortemente baseado em intermediação, e grande parte da receita depende de comissão sobre contratos e campanhas
Receita: Negócios frequentemente se concentram em poucos nomes ou contratos-chave. A perda de um atleta relevante afeta diretamente o fluxo de caixa e a estabilidade da operação
Capital: Marcas tendem a concentrar investimentos em talentos já consolidados. Monetizar os emergentes exige estratégia comercial estruturada e construção consistente de audiência
Inovação: A imagem é um ativo sensível, sujeito a crises e cláusulas contratuais complexas. A gestão demanda governança, compliance e planejamento contínuo

Fontes: Mia Lopes (Afroesporte); Cacilda Mendes dos Santos Amaral (Abragesp/Unicamp) e Renata Lopes (Mulheres do Esporte)

Da medalha à monetização

ACELERAÇÃO  - Na Afroesporte, Mia Lopes projeta faturar R$ 5 milhões gerenciando 210 atletas negros em diferentes estágios de carreira — Foto: Divulgação
ACELERAÇÃO – Na Afroesporte, Mia Lopes projeta faturar R$ 5 milhões gerenciando 210 atletas negros em diferentes estágios de carreira — Foto: Divulgação

De um lado, holofotes, competição e torcida. De outro, carreira, futuro e a dúvida: o que acontecerá quando as luzes da arena se apagarem? Para quem integra o

portfólio da Afroesporte, sportech paulista de aceleração de carreira e posicionamento de talentos negros, o depois começa a ser planejado ainda no auge.

“No Brasil, negros são maioria na alta performance, mas minoria na captura de valor”, explica a CEO, Mia Lopes, 38 anos. “Abandonamos de forma prematura o sonho de seguir carreira no esporte por falta de apoio.” Formada em jornalismo, ela passou a se dedicar à cobertura do setor e, quanto mais entrevistava profissionais e acompanhava suas trajetórias, mais percebia a recorrência desse padrão. “O sistema esportivo raramente ensina a transformar talento em ativo econômico”, afirma.

A empresa, criada em 2020, oferece serviços para desenvolvê-los em três dimensões: marca, mídia e negócio. Em vez de agenciá-los, capacita-os para criar a própria narrativa, estratégia online e autonomia financeira. “Eles precisam ter presença digital com relevância, porque isso abre portas”, ressalta. “Olhar para si como empreendedor muda a lógica do jogo.”

O modelo de negócio combina programas proprietários patrocinados – entre os parceiros, estão Betano, Decathlon, Nubank, On e Trevisan Escola de Negócios, projetos B2B para empresas e contratos recorrentes com atletas.

O principal produto é o Afroesporte Fund, programa proprietário que funciona como uma espécie de aceleradora de talentos. Marcas aportam recursos; uma banca seleciona profissionais negros do esporte; e os participantes recebem bolsa de estudos e passam por meses de capacitação em finanças, posicionamento de mercado, estruturação de carreira e presença digital. Em troca, elas recebem conteúdo digital produzido por esses talentos, com associação de imagem, participação em campanhas e relatórios.

Em 2025, o negócio faturou R$ 1,6 milhão. Para 2026, projeta chegar a R$ 5 milhões, com expansão de contratos corporativos, novas edições do fundo e estruturação de uma área comercial dedicada à prospecção ativa. Mais do que números, a transformação está na mudança de mentalidade: foram alcançadas cerca de mil pessoas no ecossistema esportivo e acompanhados 210 atletas negros em diferentes estágios de carreira.

Gestão e governança

Campos de atuação
– Análise de dados e inteligência de negócios
– Auditorias e mensuração de impacto social
– Captação de recursos com base em ESG
– Clubes e federações esportivas
– Compliance, integridade e governança
– Consultoria em leis de incentivo ao esporte
– Formação e capacitação de gestores
– Sportechs e inovação no esporte

Oportunidades
Estrutura: 
O esporte está migrando do modelo político-associativo para uma lógica de gestão empresarial. Patrocinadores exigem conselhos estruturados, compliance e planejamento estratégico
Receita: A dependência de bilheteria e patrocínio isolado perdeu força. Há espaço para receitas recorrentes, licenciamentos e produtos B2B
Capital: Investidores entram quando há dados confiáveis, projeções e governança ativa. Preparar organizações para captação virou uma nova frente de mercado
Inovação: Dados impulsionam o crescimento: performance, engajamento e retorno ao patrocinador precisam ser mensurados

Desafios
Estrutura:
 A cultura política resiste. A mudança exige educação do mercado esportivo e sensibilização dos dirigentes
Receita: A gestão ainda é vista como custo e perde espaço para a urgência do resultado esportivo. É necessário demonstrar impacto direto no faturamento e na sustentabilidade
Capital: Os aportes se concentram nos grandes clubes e em modalidades mais midiáticas. As soluções precisam ser viáveis para estruturas com orçamento limitado
Inovação: Falta base informacional: sem dados organizados, não há métricas, valuation ou atração de investidores

Fontes: Bruna Botelho (StadiumGo), Cacilda Mendes dos Santos Amaral (Abragesp/Unicamp) e Débora Saldanha (Clube Atlético Mineiro)

Dinheiro em campo

ATIVOS  - Bruna Botelho, da Stadiumgo, une tecnologia e finanças para estruturar arenas e clubes e conectá-los a investidores — Foto: Keiny Andrade
ATIVOS – Bruna Botelho, da Stadiumgo, une tecnologia e finanças para estruturar arenas e clubes e conectá-los a investidores — Foto: Keiny Andrade

Caixa vazio não combina com arquibancada cheia. Mas, no futebol brasileiro, essa contradição é comum. Clubes centenários, com milhões de torcedores e marcas valiosas, ainda sofrem com a falta de previsibilidade de receita. Quando o desempenho em campo cai, patrocínios e vendas acompanham.

“O problema é fluxo de caixa”, resume Bruna Botelho, 36 anos. Ela não fala de fora: antes de fundar a StadiumGo, passou pelo marketing do Corinthians, pela gestão de um clube-empresa e atendeu outras organizações esportivas em agências. Foi ali que percebeu que um marketing forte não compensa uma estrutura financeira frágil. A empresa, que se apresenta como uma butique tech-fin – unindo tecnologia e finanças para estruturar clubes e arenas e conectá-los a bancos, fundos e investidores –, nasceu para enfrentar esse gargalo.

Transformar um clube em ativo significa organizá-lo como empresa. É colocar contratos, receitas e garantias em ordem, estruturar governança e mostrar que existe dinheiro previsível ali, não apenas paixão de torcida. “Eles chegam com a dor da falta de capital, mas nem sempre percebem que podem monetizar recursos e patrimônios que já possuem”, diz.

Na prática, a startup organiza documentos, revisa pendências e estrutura receitas futuras – como bilheteria, direito de nome de estádio e sócio-torcedor. Depois, define a melhor estratégia para captar recursos. Pode ser crédito, refinanciamento, antecipação de recebíveis, entrada de investidor ou uma operação de fusão e aquisição (M&A), quando há compra, venda ou reorganização societária. É aqui, por exemplo, que receita futura se transforma em garantia, e projeto estruturado, em tese de investimento. “Só então nos conectamos ao mercado de capitais.”

Atualmente, a empresa, com 11 colaboradores, reúne no portfólio R$ 16 bilhões em projetos prontos para buscar investimento, sendo R$ 5 bilhões ligados a operações esportivas e imobiliárias (real estate), como modelagem financeira de novas arenas e estruturação para a captação de capital de giro. Também atuou na transformação do Guarani Esporte Clube (MG) em Sociedade Autônoma do Futebol (SAF), que permite que clubes deixem de ser associações e passem a operar como empresas. Já com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa, o foco foi no desenvolvimento de soluções com blockchain para ingressos e produtos digitais, abrindo caminho para novas frentes de monetização.

Estruturar clubes como ativos exigiu que a CEO atravessasse três territórios historicamente masculinos: esporte, finanças e tecnologia. Ela idealizou o negócio em 2016, abriu a empresa em 2021 e só recebeu o primeiro aporte em 2022, após conversar com dezenas de investidores. “Como mulher, é comum que você precise provar sua capacidade técnica mais de uma vez, especialmente quando fala de captação, investimentos ou tecnologia.”

Práticas esportivas e recreativas

Campos de atuação
– Aulas e treinos
– Comunidade e membership
– Eventos e campeonatos
– Locação de espaços físicos (arenas, centros de treinamento e quadras)
– Plataformas digitais

Oportunidades
Estrutura:
 O recreativo não depende apenas de um espaço, mas do senso de pertencimento e da comunidade. Quem organiza essa base cria retenção, previsibilidade e vantagem competitiva frente à concorrência digital
Receita: O mercado deixou de pagar apenas por treino técnico. Programas recorrentes, eventos proprietários e jornadas de evolução do praticante aumentam margem e tíquete médio
Capital: Parcerias, uso estratégico de espaços e modelos híbridos de operação reduzem risco e ampliam retorno
Inovação: Praticantes querem acompanhar seu progresso. Métricas claras, gamificação e tecnologia aplicada elevam a percepção de valor e fortalecem a marca

Desafios
Estrutura:
 O segmento nasceu orientado à prática esportiva e agora precisa operar com lógica de serviço estruturado e foco em retenção. Sem padronização, formação de equipe e método replicável, o negócio se mantém ativo, mas não escala
Receita: A aula é vista como serviço simples, não como experiência estruturada e contínua. O ponto central passa a ser precificar pertencimento, segurança e evolução do aluno – não só o tempo de treino
Capital: Estrutura física, equipe e marketing consomem caixa antes da escala. Operação enxuta e diversificação de fontes de receita passam a ser condição de sustentabilidade
Inovação: Modelo centrado no instrutor limita o crescimento. Metodologia padronizada, processos organizados e suporte digital criam base para multiplicação consistente

Fontes: Cacilda Mendes dos Santos (Abragesp/Unicamp) e Júlia Vergueiro (Nossa Arena)

Futebol com pertencimento

SÓ PARA ELAS  - Na Nossa Arena, Júlia Vergueiro reúne campos e quadras, recebe eventos e atrai patrocínios de marcas — Foto: Divulgação
SÓ PARA ELAS – Na Nossa Arena, Júlia Vergueiro reúne campos e quadras, recebe eventos e atrai patrocínios de marcas — Foto: Divulgação

Quando Júlia Vergueiro, 36 anos, atravessa a Nossa Arena em um domingo de campeonato, a cena vai além da partida de futebol. Famílias se reúnem na arquibancada improvisada, amigas torcem com cartazes e a música começa ao lado do bar. A experiência faz parte da estratégia.

Cofundadora e CEO, ela inaugurou em 2021, na Barra Funda (Zona Oeste de São Paulo), um complexo poliesportivo voltado ao esporte recreativo feminino. O projeto surgiu em plena pandemia, quando poucos ambientes ao ar livre estavam abertos e aumentava a busca por interação e prática esportiva em ambientes seguros.

A iniciativa foi motivada por um incômodo da própria empreendedora, que há dez anos comandava uma escola de futebol para meninas cujas aulas aconteciam em instalações alugadas. Ali, elas eram quase sempre minoria. “Por que uma estrutura com 15 quadras tem 14 dominadas por homens?”, questionava.

Na sua arena, desenhada por e para mulheres, elas treinam, jogam e permanecem. A operação reúne campos de society (futebol e flag football) e áreas de areia (tênis e vôlei), recebe festas e eventos corporativos e atrai patrocínios de marcas. O bar, com bufê próprio desde 2024, está entre as estrelas da casa e responde por 39% do faturamento, garantindo fluxo constante.

As locações mensais trazem previsibilidade. “São os próprios grupos que mantêm o horário ativo no espaço, o que facilita a gestão da ocupação”, afirma. Nas estruturas de areia, as aulas complementam a receita recorrente. Em 2023, a entrada em plataformas corporativas de bem-estar ampliou a ocupação e captou novas clientes com o benefício oferecido pelas empresas.

A experiência é adaptada à rotina feminina. Em vez de campeonatos longos, o modelo é o de festival: todos os jogos acontecem em um único dia, com música e programação social.

A Nossa Arena também investe em watch parties, eventos de transmissão coletiva de jogos em telão, com programação e ativações de marca. Foi assim com a Copa dos Campeões feminina da Fifa, no ano passado, e será durante a Copa do Mundo feminina, que será realizada no Brasil em 2027.

A operação, porém, é intensiva em custo fixo. “Negócios ancorados em infraestrutura dependem de localização, clima e fluxo constante. Além do risco estrutural de operar em terreno alugado”, comenta.

No início, os próprios sócios-investidores chegaram a duvidar que um empreendimento voltado exclusivamente para mulheres fecharia a conta. A estratégia foi otimizar a ocupação do espaço e investir na curadoria de experiências. Os números refletem o resultado: quase R$ 4 milhões de faturamento em 2025 e meta de R$ 4,51 milhões para este ano.

Produtos

Campos de atuação 
– Apps e tecnologia B2C
– Equipamentos e vestuário técnico
– Itens digitais de treino
– Kits e soluções físicas para prática
– Moda e lifestyle

Oportunidades
Estrutura: 
Projetar o produto já conectado a tecnologia, sensores e sistemas de coleta de dados permite retroalimentar produção, reduzir erro de estoque e ajustar oferta com base em comportamento real de uso
Receita: A integração entre físico e digital permite modelos de assinatura, personalização contínua e acompanhamento de performance, ampliando o valor da permanência do cliente
Capital: Quando a solução desenvolvida gera tecnologia proprietária e base estruturada de dados de uso, o negócio passa a ser percebido como sportech ou healthtech, ampliando valuation e acesso a investidores. Dados deixam de ser ferramenta operacional e passam a ser ativo econômico
Inovação: A nova fronteira inclui o biohacking (uso de dados biológicos para personalizar performance) e os wearables (dispositivos conectados com sensores que monitoram atividade física e geram dados contínuos)

Desafios
Estrutura: 
Muitos negócios ainda operam com lógica linear – fabricar, distribuir e vender –, sem integrar produto, software e dados desde a origem. Isso reduz eficiência, dificulta inovação e limita diferenciação
Receita: Dependência de sazonalidade e reposição física pressiona margens e dificulta previsibilidade
Capital: Empresas enquadradas apenas como fabricantes ou varejo têm múltiplos menores e maior dependência de capital de giro
Inovação: Há padronização histórica e baixa personalização. Produtos desenvolvidos sob lógica média ignoram variações biológicas, contexto de uso e integração digital

Fontes: Lívia Suarez (Bicipr3ta), Renata Lopes (Mulheres do Esporte) E Tathiana Parmigiano (Cada Uma É Uma)

Pedal sem padrão

INCLUSÃO  - Na Bicipr3ta, Lívia Suarez criou um capacete para acomodar cabelos afro, que ajudou a levar a receita da marca a R$ 225 mil no ano passado — Foto: Olga Leira
INCLUSÃO – Na Bicipr3ta, Lívia Suarez criou um capacete para acomodar cabelos afro, que ajudou a levar a receita da marca a R$ 225 mil no ano passado — Foto: Olga Leira

Em Salvador (BA), cidade onde 85% da população é negra, a cena do ciclismo urbano não refletia essa maioria. Os grupos organizados de pedal eram majoritariamente brancos – e os equipamentos, pensados para um perfil-padrão de corpo e cabelo. Foi nesse contexto que Lívia Suarez, 38 anos, fundadora e CEO da Bicipr3ta, começou a questionar a lógica do setor.

Antes de se tornar negócio, a inquietação virou movimento. Com o coletivo Preta, vem de bike!, ela incentivou e ensinou mulheres negras a pedalar e ocupar a cidade. Percebeu com o tempo que o problema ia além da representatividade. Capacetes não acomodavam tranças, dreads ou cabelos volumosos. “Quando se cria um produto, ele é pensado para um perfil-padrão, que não é o de uma pessoa negra”, diz.

A empresa nasceu em 2019, com serviços de bikefit e compartilhamento de bicicletas. Já o capacete da Bicipr3ta ficou dois anos em desenvolvimento, com modelagem 3D, prototipagem e testes até chegar ao lançamento, em 2022. A inovação estava na geometria adequada a cabelos afro e na proteção capilar integrada – tecnologia aplicada a uma demanda ignorada pelas fabricantes tradicionais.

O produto, vendido a R$ 220 em edição limitada no site próprio, na loja física em Salvador e em marketplaces, tornou-se o carro-chefe da marca. Agora dará espaço a um modelo de alta performance, com lançamento previsto para maio. “Vai ser uma dor, porque muita gente ama esse capacete.”

A decisão sinaliza também o reposicionamento. Nos últimos seis meses, o negócio mudou de direção. “Convidei a prefeitura de Salvador e convoquei as empresas para uma conversa. Eu que fui até elas, com uma mensagem direta: vocês estão perdendo dinheiro”, referindo-se ao fato de grandes marcas ainda ignorarem um público consumidor relevante. Hoje, 70% das vendas são feitas para organizações privadas e poder público, e o faturamento cresceu 20% no período.

Com quatro pessoas na operação fixa e fábrica terceirizada, o faturamento foi de R$ 225 mil em 2025 e a projeção é de R$ 380 mil neste ano. Cerca de 60% da receita anual vem do produto físico, e 40%, de serviços como consultorias e palestras sobre inovação em produto, desenvolvimento técnico e criatividade.

Saúde e performance esportiva

Campos de atuação
– Fisiologia e preparação física
– Fisioterapia, reabilitação e prevenção de lesões
– Longevidade e bem-estar de atletas
– Nutrição e metabolismo esportivo
– Performance feminina e suas especificidades biológicas
– Psicologia e saúde mental aplicadas ao esporte
– Tecnologia e monitoramento da performance

Oportunidades
Estrutura: 
A performance deixou de ser guiada pela intuição e passou a ser baseada em protocolos e evidências científicas. Negócios que traduzem conhecimento técnico em metodologias estruturadas ampliam o valor percebido
Receita: A longevidade esportiva gera demanda contínua: prevenção, reabilitação e acompanhamento estabelecem relações de longo prazo. Programas recorrentes e pacotes integrados elevam a previsibilidade financeira
Capital: Lesão custa caro, e o desempenho impacta diretamente contratos e patrocínios. O investimento em saúde deixa de ser visto como custo e passa a ser tratado como estratégia
Inovação: Dados transformam o cuidado em um recurso mensurável. Soluções que organizam e interpretam informações ganham relevância e espaço

Desafios
Estrutura: 
Escala exige equipe multidisciplinar e padronização de protocolos. Sem método replicável, o crescimento permanece restrito à capacidade individual
Receita: O consumidor ainda compara essas soluções com serviços generalistas, que oferecem propostas amplas a preços competitivos. A diferenciação depende de especialização clara e comunicação consistente de valor
Capital: Equipamentos, softwares e certificações exigem investimento relevante. O modelo financeiro precisa sustentar ciclos contínuos de atualização tecnológica e qualificação profissional
Inovação: O mercado convive com soluções milagrosas e modismos recorrentes. A sustentabilidade depende de evidência científica, ética profissional e credibilidade técnica

Fontes: Cacilda Mendes dos Santos Amaral (Abragesp/Unicamp); Carla Di Pierro e Tathiana Parmigiano (Cada Uma É Uma)

Ciência aplicada à performance

PRECISÃO - Carla di Pierro (à dir.) e Tathiana Parmigiano criaram a consultoria Cada Uma é Uma, com foco em atletas mulheres — Foto: Divulgação
PRECISÃO – Carla di Pierro (à dir.) e Tathiana Parmigiano criaram a consultoria Cada Uma é Uma, com foco em atletas mulheres — Foto: Divulgação

Há mais de 15 anos no Comitê Olímpico Brasileiro, a médica Tathiana Rebizzi Parmigiano, 48 anos, percebeu um padrão que se repetia no alto rendimento: estudos e protocolos desenvolvidos para atletas do sexo masculino eram simplesmente reproduzidos para as mulheres. Na prática, isso significava ignorar variáveis centrais do corpo feminino. Como ginecologista com atuação em saúde e performance esportiva, ela via no consultório os efeitos dessa lógica – ciclo menstrual tratado como detalhe, questões alimentares subestimadas e treinos estruturados sem considerar diferenças biológicas determinantes para o desempenho.

Ao longo dos anos, esse olhar passou a dialogar com o trabalho da psicóloga esportiva Carla Di Pierro, 47. Desde a Olimpíada do Rio, em 2016, as duas começaram a acompanhar atletas em conjunto, reforçando a ideia de que alto rendimento e cuidado integral não competem entre si. “Saúde gera performance”, afirma Parmigiano.

Em 2025, fundaram em São Paulo a consultoria Cada Uma É Uma, para transformar essa visão científica em um método estruturado de aplicação prática. Além de atletas, atendem mulheres que praticam atividade física de forma recreativa – Di Pierro, que faz triatlo desde a década de 1990, é exemplo desse público.

Um dos principais focos do negócio está nos treinadores e nas lideranças de clubes e organizações. Compreender as especificidades femininas altera a lógica do preparo e da gestão das equipes. É nesse ponto que a empresa se insere na cadeia de valor do esporte: ao conectar ciência, treinamento e tomada de decisão, impacta não apenas o desempenho individual, mas a sustentabilidade dos projetos. Capacitar quem cuida diretamente das atletas influencia a forma como são preparadas, reduz o risco de lesões e cria melhores condições para performar. “Isso aprimora a gestão dos times e ajuda clubes e empresas a ofertar serviços mais adequados”, diz Di Pierro.

O carro-chefe é a capacitação online para treinadores, com cinco ou mais encontros, atividades práticas e apresentação final. A proposta inclui a criação de um selo para instituições que comprovem preparo para trabalhar com a mulher atleta. Outra frente são palestras para academias, clubes e empresas. Entre os clientes estão Corinthians, ESPN, Palmeiras, Santos, São Paulo e Yes Tennis Academy.

O modelo de negócio foi estruturado ao longo de 2025. A estratégia de crescimento passa por ampliar a atuação em capacitações, mantendo o perfil de butique especializada. A prioridade não é crescer de forma massiva, mas preservar a qualidade técnica. O atendimento clínico segue nos consultórios individuais das profissionais, integrado à proposta interdisciplinar. A estrutura inclui quatro psicólogas e quatro ginecologistas vinculadas às fundadoras, além de apoio externo na captação comercial.

Fonte: Revista PEGN