O técnico da seleção brasileira Carlo Ancelotti renovou o contrato com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) por mais quatro anos, até a Copa do Mundo de 2030, segundo anúncio da entidade na quinta-feira (14).
Desde que assumiu o cargo, em maio de 2025, o italiano liderou a seleção — maior campeã da história do futebol mundial — em dez jogos. Foram cinco vitórias, dois empates e três derrotas. Sob seu comando, a equipe marcou 18 gols e sofreu 8. “Desde o primeiro minuto, entendi o que o futebol significa para este país. Estamos trabalhando para levar a Seleção Brasileira de volta ao topo do mundo“, disse em comunicado divulgado pela CBF. “Mas queremos mais. Mais vitórias, mais tempo e mais trabalho.”
Preparativos para a Copa do Mundo de 2026
A menos de um mês do início da Copa do Mundo, Ancelotti acredita que a seleção brasileira precisa aprender a transformar a pressão em combustível na tentativa de acabar com uma espera de 24 anos para levantar o troféu novamente. “Há muita pressão sobre os jogadores. E os jogadores também colocam muita pressão sobre si mesmos, às vezes até demais”, afirmou à Reuters. “Precisamos estabelecer uma rotina para evitar tudo isso. Gerenciar bem a pressão significa ter mais motivação e mais camaradagem.”
“Você pode compartilhar a pressão. Assim, ela pesa menos sobre você.”
Carlo Ancelotti
Para o técnico, o caminho é dar ao Brasil uma estrutura robusta o suficiente para sobreviver à intensidade do futebol moderno. “O que o futebol e os jogadores brasileiros não podem perder é sua maior qualidade: criatividade, alegria e energia.”
Gabaritado para assumir essa tarefa, Ancelotti é conhecido por alcançar em campo algo que muitas empresas esperam da liderança hoje em dia: equipes engajadas. O italiano consegue entregar para os acionistas (dirigentes e patrocinadores) e clientes (torcedores e imprensa) um grupo de pessoas (atletas) altamente envolvidas com o trabalho e com a busca de resultados (vitórias e títulos). “Ancelotti cria um nível alto de engajamento entre todos os jogadores porque coloca um propósito por trás da execução. Tudo faz sentido para a equipe ”, disse Gil Van Delft, CEO da consultoria Michael Page, em entrevista à Forbes no momento do anúncio de Ancelotti como técnico da seleção brasileira.
A seguir, veja 8 lições de liderança de Carlo Ancelotti que servem para qualquer carreira:
1. Adaptabilidade
Uma das top 10 soft skills das carreiras do futuro, adaptar-se é uma qualidade essencial em um mundo que está se transformando a todo momento, seja por causa da Inteligência Artificial ou o advento do trabalho híbrido. Ancelotti não tenta impor um estilo de jogo ao time, mas se adapta ao que o momento pede. Como jogador, soube fazer o trabalho pesado no Milan, quando as estrelas eram os holandeses Gullit, Van Basten e Rijkaard.
2. Compreensão da cultura
Compreender a cultura das empresas é uma das qualidades mais importantes na alta liderança – ou para qualquer um que almeja chegar a ela. CEOs que compreendem a cultura da empresa e acrescentam valor a ela são alguns dos mais bem-sucedidos. “Ele entende primeiro a cultura do clube e do país, entende cada jogador, conhece bem as pessoas e daí monta a melhor estratégia. E, com isso, envolve todos na execução”, diz Van Delft.
3. Escuta ativa
Saber ouvir é uma qualidade rara no mundo corporativo. Estão todos muito mais interessados em falar. Se Carlo Ancelotti fosse o presidente de uma empresa, ele seria daquelas pessoas que ouve as questões de sua equipe até o fim e se conecta com os funcionários.
4. Lapidação de talentos
Quando chegou ao Milan, Kaká já era campeão mundial pela seleção, mas tinha o português Rui Costa e Rivaldo, astro do pentacampeonato, à sua frente. Em campo, Kaká mostrou que o time funcionava melhor com ele. Mesmo sendo uma aposta para o futuro, o então jovem meia provou que poderia furar a fila e ser importante naquele momento. Ancelotti bancou a aposta e transformou Kaká num dos melhores jogadores do mundo em sua primeira passagem pelo Milan.
5. Formação de times de alta performance
Real Madrid, Milan, Bayern de Munique, Parma em época de ouro, Chelsea e Paris Saint-Germain. Em todos esses clubes, Ancelotti precisou lidar com os atletas mais famosos do mundo. Cristiano Ronaldo, Cafu, Ibrahimovic, Seedorf e Crespo foram algumas das estrelas que o italiano soube como liderar e unir para conseguir bons resultados.
6. Tranquilidade frente às adversidades
“Ele é uma pessoa muito calma. Durante o jogo, você vai vê-lo mais tranquilo e não gritando muito no banco”, diz Van Delft. Isso acontece porque ele alinha previamente a estratégia com a equipe, deixa tudo muito combinado. “E assim pode manter a calma durante o jogo.”
7. Capacidade de tomar decisões difíceis
No Milan, em 2009, o técnico autorizou a venda de Kaká ao Real Madrid apesar dos apelos de torcedores, pois sabia que o brasileiro começava a apresentar problemas clínicos que poderiam se agravar. Se havia um momento para uma venda milionária, era aquele. Kaká foi embora e o tempo mostrou que o italiano estava correto. Os quatro anos seguintes de Kaká foram marcados por lesões.
8. Foco no processo
Se ganha ou perde, Ancelotti entende o que aconteceu em campo e chama a equipe para analisar. A derrota do Milan na final da Liga dos Campeões de 2005, contra o Liverpool, após abrir 3 a 0 no primeiro tempo, é considerada uma das maiores viradas da história – o time inglês empatou no segundo tempo e venceu nos pênaltis. Ainda assim, ele manteve a calma. Acreditava que o time tinha jogado bem e entendeu que perder faz parte do jogo. Dois anos depois, contra o mesmo Liverpool, teve a chance de revanche. Desta vez, o título ficou com o Milan.
Por dentro da carreira de Carlo Ancelotti
O currículo de Ancelotti inclui clubes de futebol que equivalem a algumas das mais importantes empresas do mundo. Sua posição de técnico seria como se ele fosse um CEO numa holding com milhões de clientes fixos e apaixonados pelo produto oferecido.
Antes de ser técnico, ele foi jogador de meio campo por mais de 15 anos. Jogou pelo Parma, Roma – junto de Paulo Roberto Falcão – e Milan, além de ter participado de 26 jogos pela seleção italiana, disputando as Copas do Mundo de 1986 e 1990. Dentro de campo, seus principais títulos são duas Ligas dos Campeões da Europa, conquistadas com o Milan.
Como técnico, Ancelotti é o único a vencer o principal interclubes europeu cinco vezes: em 2003 e 2007, pelo Milan, e em 2014, 2022 e 2023, pelo Real Madrid. Ele passou ainda por Chelsea, Paris Saint-German e Bayern de Munique, com diferentes níveis de sucesso, mas vencendo títulos nacionais em todos os clubes.
A carreira de Ancelotti, assim como as trajetórias do mundo corporativo, nem sempre foi linear. Depois de comandar os gigantes Milan, Real Madrid e Bayern de Munique e passar pelos novos ricos e poderosos Chelsea e Paris Saint-German, treinou Napoli e Everton, camisas tradicionais, mas fora do primeiro escalão europeu.
Quando estava no time inglês, em 2020-21, foi chamado para socorrer o Real Madrid, que vivia um momento problemático. No fim da temporada, empilhou os títulos da Supercopa da Espanha, do Campeonato Espanhol e da Liga dos Campeões, numa campanha histórica que confirmou Vini Jr., seu provável titular da seleção brasileira, como um dos melhores jogadores do mundo.