Inovações na indústria automotiva aceleram negócios de pequenos empreendedores

A força do mercado de usados, a digitalização das vendas e o avanço da eletrificação reposicionam o setor e ampliam as oportunidades

A tradicional paixão dos brasileiros por automóveis deu origem a uma das mais vibrantes cadeias de negócios do país. De acordo com o estudo Global Entrepreneurship Monitor (GEM), um em cada quatro empreendimentos em atividade está relacionado ao setor. A força desse segmento pode ser constatada no volume de veículos comercializados anualmente: entre novos, seminovos e usados, foram mais de 20 milhões de unidades emplacadas ou transferidas em 2025, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).

Impulsionada pela compra de carros de segunda mão, que corresponderam a 92,5% das vendas realizadas no ano passado, a indústria automotiva vem revelando oportunidades para empreendedores dos mais diversos perfis e regiões. “A inflação, as taxas de juros e os preços elevados dos zero-quilômetro reforçaram o papel dos usados como substitutos dos chamados veículos ‘populares’ entre os consumidores. Como estamos falando de um ecossistema extremamente interligado, trata-se de um cenário que gera impactos em toda a rede, do aumento da procura por serviços de reparos ao surgimento de novos modelos na indústria de seguros”, diz Ricardo Roa, sócio-líder do setor automotivo da consultoria KPMG no Brasil.

O avanço das tecnologias digitais e as mudanças nos hábitos de consumo vêm alterando a dinâmica desse mercado, com impactos diretos sobre as formas de trabalho e a organização dos serviços nas cidades. “A popularização dos aplicativos de mobilidade e entregas trouxe mudanças profundas nas maneiras pelas quais as pessoas trabalham e se deslocam”, pontua Enilson Sales, presidente do conselho deliberativo da Fenauto. Há oportunidades em locação de veículos, seguros e serviços de mobilidade.

Em paralelo, a crescente eletrificação da frota nacional reforça as perspectivas sobre a emergência de um próximo ciclo de transformações. Com mais de 620 mil veículos híbridos e elétricos nas ruas, o segmento registrou um crescimento de mais de 270% em 2025, concentrando cerca de 10% das aquisições de novos durante o período, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). A demanda por mão de obra qualificada, o investimento em novas tecnologias e a expansão da rede de serviços especializados estão entre os principais desdobramentos que devem acompanhar esse avanço.

Para Marcelo Franciulli, diretor-executivo da Fenabrave, a expansão da presença de montadoras chinesas e o lançamento de novas gerações de híbridos devem seguir impulsionando a popularização desses modelos no país. “O mercado nacional de carros elétricos ainda apresenta restrições significativas de infraestrutura, mas o consumidor está aderindo rapidamente a essas soluções de motorização e alta tecnologia embarcada. Esse movimento tem se mostrado forte nos grandes centros urbanos, onde a relação entre autonomia e pontos de carregamento se mostra mais eficiente e econômica.”

À medida que esses veículos ganham espaço nas ruas, novas demandas passam a se impor ao setor. Da adaptação de oficinas tradicionais ao surgimento de startups especializadas em serviços, tecnologia e financiamento, o mercado automotivo consolida-se como um dos principais celeiros de oportunidades para empreendedores brasileiros. Nas páginas a seguir, reunimos movimentos, estratégias e modelos de negócio que ajudam a traduzir essas transformações – e as histórias de empresas que vêm moldando o próximo capítulo da indústria automotiva no país.

Os 4 vetores de transformação

Cenário macroeconômico
A combinação entre inflação, juros elevados e aumento dos preços de fábrica ampliou a procura por veículos usados. Esse movimento fortaleceu serviços de reparo e manutenção e concentrou a compra de novos entre grandes locadoras e gestores de frotas corporativas.

Mobilidade digital
A expansão da economia de aplicativos – dos serviços de entrega às plataformas de mobilidade urbana – vem redesenhando a cadeia automotiva. O avanço desses modelos impulsiona oportunidades em áreas como locação, logística de última milha e seguros.

Inovação tecnológica
Cada vez mais orientados por plataformas digitais, os carros incorporam sistemas avançados de sensores, eletrônica embarcada e softwares de controle. Essa evolução tecnológica eleva a demanda por qualificação técnica e abre espaço para capacitação.

Eletrificação de frotas
A transição energética, estimulada por incentivos públicos e estratégias globais das montadoras, acelerou a expansão dos híbridos e elétricos no país. O processo impulsiona negócios em infraestrutura de recarga, soluções de autonomia e manutenção de baterias.

Raio-x do setor

Números, tendências e segmentos que estruturam o mercado automotivo brasileiro

– 128,7 milhões é o número de automóveis que circulam nas ruas do Brasil; com 35,2 milhões de veículos, São Paulo concentra a maior frota

* De janeiro a novembro - Fontes: Associação Brasileira Do Veículo Elétrico (ABVE), Associação Nacional De Veículos Automotores (Anfavea), Federação Nacional Das Associações Dos Revendedores De Veículos Automotores (Fenauto),Global Entrepreneurship Monitor (Gem) e Ministério dos Transportes — Foto: PEGN
* De janeiro a novembro – Fontes: Associação Brasileira Do Veículo Elétrico (ABVE), Associação Nacional De Veículos Automotores (Anfavea), Federação Nacional Das Associações Dos Revendedores De Veículos Automotores (Fenauto),Global Entrepreneurship Monitor (Gem) e Ministério dos Transportes — Foto: PEGN

– Com mais de 48 mil lojas multimarcas em atividade, o mercado de vendas de usados e seminovos brasileiro é responsável por um faturamento anual de R$ 1,3 trilhão e 600 mil empregos diretos

Fontes: Associação Brasileira Do Veículo Elétrico (ABVE), Associação Nacional De Veículos Automotores (Anfavea), Federação Nacional Das Associações Dos Revendedores De Veículos Automotores (Fenauto),Global Entrepreneurship Monitor (Gem) e Ministério dos Transportes — Foto: PEGN
Fontes: Associação Brasileira Do Veículo Elétrico (ABVE), Associação Nacional De Veículos Automotores (Anfavea), Federação Nacional Das Associações Dos Revendedores De Veículos Automotores (Fenauto),Global Entrepreneurship Monitor (Gem) e Ministério dos Transportes — Foto: PEGN

Radar de tendências

Em um setor em rápida transformação, tanto quem já atua quanto quem planeja empreender no mercado automotivo não pode mais se guiar apenas por movimentos já consolidados. A competitividade crescente, a pressão por eficiência e a aceleração tecnológica exigem atenção constante a tendências que estão redesenhando modelos de negócio, cadeias de valor e a relação com consumidores. A seguir, reunimos dez vetores capazes de orientar decisões estratégicas e investimentos nos próximos anos – e apontar caminhos promissores para pequenas e médias empresas.

1. VEÍCULOS CONECTADOS
Dos assistentes avançados de condução aos sistemas de manutenção preditiva, os automóveis estão se transformando em plataformas integradas de tecnologia. Baseado no conceito de Software-Defined Vehicle (SDV), esse avanço abre espaço para novos serviços de diagnóstico, atualização remota e manutenção especializada.

2. ENERGIA COMO SERVIÇO
Com o avanço da eletrificação, cresce a demanda por modelos que integrem criação, instalação e gestão de pontos de recarga. O mercado de Energy as a Service (EaaS) movimenta mais de US$ 30 bilhões por ano, segundo a GMInsights, e cria oportunidades para negócios focados em infraestrutura, gestão energética e contratos recorrentes.

3. SOLUÇÕES DE AFTERMARKET
A força do mercado de seminovos segue impulsionando o pós-venda, com destaque para soluções que combinem eficiência operacional, custos competitivos e digitalização. Marketplaces de peças certificadas, manutenção expressa e serviços de estética automotiva estão entre os segmentos mais aquecidos.

4. INTEGRAÇÃO FINANCEIRA
A incorporação de seguros, crédito e meios de pagamento às jornadas de compra se torna decisiva para engajar consumidores sensíveis a preço, conveniência e flexibilidade. Oportunidades emergem para empresas capazes de conectar, de forma simples, soluções de bancos e seguradoras às operações de montadoras, locadoras e lojistas.

5. MANUTENÇÃO DE ELÉTRICOS
O crescimento de híbridos e elétricos cria uma frente de demanda por serviços especializados em baterias, eletrônica embarcada e sistemas de alta voltagem. A formação de profissionais capacitados avança com iniciativas como o centro de treinamento inaugurado pela GWM em parceria com o Senai Ipiranga, em São Paulo.

6. MOBILIDADE COMPARTILHADA
Mudanças nos hábitos urbanos e a consolidação da economia de aplicativos seguem enfraquecendo a lógica da posse. Modelos baseados em pay per use, locação e assinaturas flexíveis ganham escala tanto no B2B quanto no B2C, abrindo espaço para soluções de gestão, seguros, manutenção e tecnologia embarcada.

7. GESTÃO PROFISSIONALIZADA
A digitalização do ecossistema automotivo exige investimentos contínuos em capacitação e ferramentas de gestão. Automatização de processos, controle financeiro, análise de dados e eficiência de custos tornam-se diferenciais competitivos para lidar com margens pressionadas e volatilidades econômicas.

8. EXPERIÊNCIA OMNICHANNEL
A integração entre canais físicos e digitais é cada vez mais determinante para gerar leads e aumentar conversões. Segundo a Fenabrave, 90% dos brasileiros pesquisam online antes de visitar uma concessionária. Atendimento virtual, produção de conteúdo e anúncios geolocalizados passam a ser peças centrais da estratégia comercial.

9. ESG NO CENTRO DAS DECISÕES
Impulsionada por metas de descarbonização e políticas públicas, a indústria do setor pode reduzir suas emissões de carbono em até 50% nos próximos cinco anos, segundo a Anfavea. Além do eixo ambiental, cresce a relevância de ações voltadas a diversidade, inclusão e fortalecimento de práticas de governança em toda a cadeia produtiva.

Fontes: Fenabrave, Fenauto, Fortune Insights, Gartner, GMInsights, KPMG, McKinsey, S&P Global e Sebrae

Compra e venda

As mudanças na jornada do consumidor
Um dos segmentos mais tradicionais – e promissores – do mercado automotivo brasileiro, a comercialização de veículos seminovos e usados passa por um profundo processo de transformação. Em um cenário cada vez mais orientado pela digitalização das jornadas de compra e pelo uso intensivo de dados, estratégias baseadas exclusivamente na “lábia” de vendedores e em saldões de fim de semana têm impacto cada vez mais limitado. “A era do lojista que espera passivamente o cliente chegar ao ponto de venda terminou. Das redes sociais às recomendações em sites de busca, é preciso buscar maneiras inovadoras de se destacar e ganhar a confiança em ambientes físicos e digitais”, afirma Enilson Sales, da Fenauto.

Paralelamente às mudanças nos canais de captação e atendimento, a adoção de fundamentos sólidos de gestão segue como um fator decisivo para enfrentar desafios históricos do segmento, especialmente aqueles relacionados ao fluxo de caixa. Entre os principais gargalos estão ciclos longos de estoque, níveis elevados de inadimplência, custos associados ao pós-venda e margens de lucro estreitas.

Diante desse cenário, Sales ressalta a importância do investimento em capacitação estratégica e em tecnologias de inteligência de mercado: “A modernização da indústria automotiva vem abrindo novos caminhos de eficiência na cadeia produtiva. Ao mesmo tempo em que os consumidores estão mais empoderados em tomar decisões, os lojistas ganharam acesso a ferramentas sofisticadas para elaborar planejamentos e analisar processos de maneira mais assertiva”.

Oportunidades

  • Canais digitais: Plataformas capazes de ampliar o fluxo de clientes nas lojas físicas e de promover maior transparência e agilidade nas transações online
  • Facilitação de crédito: Parcerias e soluções que simplifiquem os processos de financiamento, com foco em segurança e escalabilidade
  • Serviços integrados: Desenvolvimento de ecossistemas completos de pré e pós-venda, incluindo inspeção, estética, revisão e documentação

Desafios

  • Resistência comportamental: Construção de relações de confiança com perfis de consumidores mais conservadores diante de novos formatos e canais de venda
  • Vulnerabilidade econômica: Maior exposição a oscilações de juros, inflação e restrições de crédito, em um mercado de bens de alto valor
  • Renovação de estoque: Capacidade de manter portfólios atualizados, com preços competitivos e elevado giro de veículos

Negociação em 24 horas

CONEXÃO - Luca Cafici, da Instacarro, conecta vendedores e lojistas em todo o país e permite vender o carro sem sair de casa, mesmo a quilômetros de distância — Foto: Keiny Andrade
CONEXÃO – Luca Cafici, da Instacarro, conecta vendedores e lojistas em todo o país e permite vender o carro sem sair de casa, mesmo a quilômetros de distância — Foto: Keiny Andrade

Com uma plataforma que viabiliza negociações rápidas e seguras entre proprietários de veículos e lojistas, a Instacarro contabiliza 60 mil automóveis vendidos. Fundada em 2015 pelo argentino Luca Cafici, 34 anos, a startup tem como diferencial um sistema integrado que acompanha toda a jornada de comercialização de modelos leves, incluindo o agendamento de inspeções, a avaliação de preços, o recebimento de propostas e a intermediação de pagamentos.

A rede tem cerca de 40 mil compradores cadastrados, e os vendedores recebem as primeiras ofertas em até 24 horas. “Ao padronizar a informação e usar tecnologia para dar mais transparência e segurança, conseguimos conectar vendedores a varejistas de qualquer lugar do país. O leilão entre lojistas garante que o carro seja vendido para quem tem maior demanda naquele momento, maximizando o preço”, afirma o empreendedor. Para ampliar a confiabilidade das transações, a empresa vem experimentando ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar potenciais problemas mecânicos por meio de sinais técnicos e padrões capturados durante a inspeção.

A startup atraiu mais de R$ 250 milhões em aportes captados até o momento. Os planos de expansão incluem a diversificação das frentes de atuação e o fortalecimento da presença nacional, hoje concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Nosso diferencial continua sendo permitir que o cliente venda o carro sem sair de casa, mesmo que o comprador esteja a centenas de quilômetros de distância. Queremos ampliar esse ecossistema oferecendo serviços complementares como produtos financeiros, garantias e serviços de transporte”, diz ele.

Reparos e serviços

A transformação das oficinas
Durante muitos anos, a informalidade e o conhecimento empírico acompanharam a criação de negócios de reparação automotiva. As mudanças no comportamento dos consumidores e os avanços tecnológicos, no entanto, têm levado um número crescente de empreendedores a investir em novos modelos de gestão, atendimento e divulgação.

“O aquecimento do mercado de usados aumentou a demanda por serviços do segmento. Muitos empresários perceberam que o conhecimento técnico e a digitalização são fatores cruciais para sobreviver e prosperar nessa área”, diz Reginaldo Oliveira, consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP).

Assim como em qualquer outra operação de serviços, a qualificação constante das equipes desponta como um dos principais diferenciais competitivos. No âmbito administrativo, os pontos de atenção incluem a logística das redes de suprimento – dificuldades em encontrar peças de reposição são problemas recorrentes entre proprietários de oficina – e o controle do capital de giro, fundamental para lidar com longos intervalos de faturamento e volatilidade de custos. “Trata-se de um modelo no qual a agilidade e a eficiência são cruciais tanto para aumentar a satisfação dos clientes como para a própria rentabilidade do negócio”, pontua Oliveira.

Oportunidades

  • Criação de conteúdo: Fortalecimento de autoridade e reputação junto a potenciais clientes por meio do compartilhamento de conhecimento em redes sociais
  • Marketing gelocalizado: Ações digitais voltadas à atração de pessoas, estimulando recomendações online e o aumento do fluxo nas lojas
  • Inovação tecnológica: Investimento em treinamento e equipes capacitadas para atender modelos de última geração, incluindo a manutenção de veículos híbridos e elétricos

Desafios

  • Gestão e capacitação: Atração, retenção e qualificação contínua de profissionais especializados
  • Distribuição de peças: Acesso a redes de fornecedores capazes de entregar itens de qualidade, com preços e prazos competitivos
  • Fluxo de caixa: Administração de prazos longos de recebimento e exposição recorrente a oscilações de custos fixos e variáveis

Capacitação como estratégia

TRAJETÓRIA - À frente da Garage R Motors, Rieli Freire transformou formação técnica e experiência prática em um negócio profissional e conectado — Foto: Keiny Andrade
TRAJETÓRIA – À frente da Garage R Motors, Rieli Freire transformou formação técnica e experiência prática em um negócio profissional e conectado — Foto: Keiny Andrade

Assim como muitos empreendedores do setor, Rieli Freire, 24 anos, entrou em contato com o universo de reparos e serviços ainda na adolescência, observando a movimentação da oficina familiar instalada na garagem de sua casa. O interesse pelas atividades resultou na entrada gradual no dia a dia da operação, com a realização de tarefas administrativas e burocráticas.

Incentivada pelo pai, ela buscou cursos de capacitação para atuar na prestação de serviços diretos aos clientes do local. Após se formar como tecnóloga em sistemas e manutenção automotiva pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), ela decidiu abrir o seu próprio estabelecimento, no final de 2019.

“Percebi que existiam oportunidades de crescimento que poderiam ser aproveitadas com uma operação formalizada. Com a abertura de um CNPJ e o aluguel de um galpão estruturado, comecei a realizar parcerias com distribuidoras de peças e desenvolver novos formatos de atendimento e divulgação”, afirma.

Localizada na Zona Leste de São Paulo, a Garage R Motors atende uma média de 70 veículos por mês. A equipe é formada por quatro mecânicos, que passam por programas de reciclagem constantes. Em poucos anos de atuação, o espaço tornou-se conhecido pelo ambiente de transparência e acolhimento.

A presença ativa da empreendedora, na oficina e nas redes sociais, e a previsibilidade dos processos têm sido decisivos para atrair o público feminino, que representa 50% da clientela. Para ampliar as possibilidades, Freire vem expandindo sua rede de contatos em grupos como o Comitê de Jovens Empreendedores da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o projeto Cheias de Graxa, de educação, inclusão e capacitação de mulheres.

Locação, assinatura e frotas

A reinvenção da mobilidade
O uso crescente de corridas e serviços intermediados por aplicativos impulsiona negócios como locadoras, gestoras de frotas corporativas e plataformas de compartilhamento – especialmente as soluções de car-sharing e VaaS (veículos como serviço). “A principal mudança é cultural: o setor está deixando de ser apenas automotivo para se tornar um negócio de mobilidade, tecnologia e serviços”, aponta Daniele Nadalin, sócio associado da McKinsey no Brasil.

Tomou forma um ecossistema voltado ao ganho de eficiência e à ampliação do acesso a modelos de uso compartilhado. Em 2024, o setor de locações de veículos registrou um faturamento recorde de R$ 52,9 bilhões, consolidando um crescimento de mais de 17% em relação ao ano anterior, de acordo com o último levantamento divulgado pela Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla).

Cada vez mais integradas a sistemas de montadoras e seguradoras, as soluções de veículos compartilhados passaram a atender diferentes perfis de cliente – B2B, profissionais autônomos e consumidores finais. Segundo dados da Abla, o modelo de plataformas de assinatura cresceu 125% nos últimos cinco anos e já responde por mais de 10% das locações realizadas no país.

O movimento atende às expectativas das novas gerações: 34% dos brasileiros já enxergam os aplicativos de compartilhamento como o futuro do automóvel nos grandes centros urbanos. “A ‘servitização’ é uma das principais tendências. A expectativa é que o crescimento de modelos de aluguel de longo prazo e assinatura deve resultar na presença de novos mega players no setor, trazendo novas soluções em relação aos modelos tradicionais”, afirma Nadalin.

Oportunidades

  • Conexão de ecossistemas: Plataformas capazes de conectar gestores de frotas ociosas a setores com alta demanda por soluções de mobilidade
  • Serviços de entrega: Modelos voltados ao uso de profissionais autônomos, como entregadores de delivery, shoppers (compradores em plataformas como Rappi e Sams Club) e motoristas de aplicativos
  • One stop shop: Criação de experiências integradas para jornadas de clientes nos segmentos de locação e assinatura de veículos

Desafios

  • Renovação de frotas: Capacidade de oferecer veículos atualizados a diferentes perfis de usuários em um contexto de inflação e juros elevados
  • Gestão de riscos: Administração dos índices de sinistralidade e investimentos contínuos em segurança de condutores e passageiros
  • Fidelização e precificação: Construção de relações recorrentes com base em análises complexas de contratos, depreciação, manutenção e custos operacionais

Assinaturas inteligentes

PERSONALIZAÇÃO - Moisés Herszenhorn e Renata Porto, da Zmatch, especializada em soluções de assinatura com tecnologia, escala e foco na experiência do cliente — Foto: Keiny Andrade
PERSONALIZAÇÃO – Moisés Herszenhorn e Renata Porto, da Zmatch, especializada em soluções de assinatura com tecnologia, escala e foco na experiência do cliente — Foto: Keiny Andrade

Fundada em 2022 por Renata Porto, 49 anos, e Sylvio de Barros (1967–2024), criador de empresas como Webmotors e iCarros, a zMatch oferece uma plataforma completa para apoiar gestores de frota, montadoras e concessionárias na adoção de formatos de assinatura. O sistema contempla todos os pontos da jornada de clientes premium, dos meios de pagamento aos serviços de concierge personalizados.

“Percebemos uma grande mudança no comportamento do consumidor, que passou a enxergar a mobilidade como uma experiência e valorizar mais o uso dos carros do que a posse. O objetivo é conectar a oferta de grandes frotas com as soluções que fazem mais sentido para os desejos e as demandas de cada consumidor”, afirma ela.

Apoiada por um investimento inicial de R$ 40 milhões, a startup formou uma rede de parcerias que reúne marcas como LM Mobilidade (do grupo Volkswagen), Localiza e Movida. O portfólio atual é composto por 400 modelos, incluindo soluções completas para veículos elétricos. O faturamento mensal está em torno de R$ 400 mil.

No final do ano passado, a empresa recebeu uma rodada adicional de R$ 10 milhões para escalar a operação – o aporte marcou a chegada do coCEO Moisés Herszenhorn, 46, para reforçar a estratégia de crescimento. Os planos de expansão incluem o lançamento da ZAI, um sistema de inteligência artificial focado na personalização das recomendações de assinaturas realizadas por vendedores de concessionárias. “Queremos ajudá-los a ofertar o modelo de assinaturas como uma alternativa atraente de aquisição de carros”, diz Porto. “O objetivo é ganhar escala sem perder o foco em oferecer a melhor solução para o cliente final.”

Escolas e formação técnica

Talentos para o futuro
As demandas por formação de mão de obra especializada continuam entre os principais gargalos para o crescimento de negócios automotivos, sobretudo nos segmentos ligados à prestação de serviços de aftermarket – conjunto de atividades realizadas após a venda do veículo, como manutenção, reparos, revisões e substituição de peças.

De acordo com um levantamento divulgado pela Oficina Brasil, um em cada três donos de oficina no país relata dificuldades para contratar profissionais preparados e aptos a atuar em ambientes marcados pela digitalização de processos e por inovações tecnológicas. Para André Simões, diretor- -executivo da plataforma, “a formação e a retenção de talentos é um desafio histórico, e a qualificação contínua é fundamental para que esse novo perfil acompanhe a velocidade das transformações do setor”.

As oportunidades abertas por iniciativas de capacitação são reforçadas pelo descompasso entre disposição empreendedora e acesso limitado à educação formal observado no mercado: a pesquisa aponta que 68% atuam como proprietários ou chefes de equipe, enquanto apenas 18% concluíram o ensino superior.

Nesse contexto, o aumento da presença feminina na atividade automotiva surge como outra tendência. Nos últimos cinco anos, o percentual de mulheres nessas funções avançou de 5% para 16,5%, com aproximadamente 70% ocupando cargos de liderança.

Oportunidades

  • Microlearning: Pílulas de conteúdo rápidas, voltadas à resolução de dúvidas pontuais e ao estímulo de jornadas mais aprofundadas de aprendizado
  • Diversidade e inclusão: Iniciativas que promovam equidade de oportunidades e ampliem a representatividade entre diferentes perfis profissionais
  • Programas de incentivo: Oferta de recompensas e benefícios a equipes e empresários engajados em ações de desenvolvimento profissional

Desafios

  • Barreiras culturais: Resistência de negócios familiares à adoção de novas práticas de gestão e comunicação
  • Informalidade: Ausência de estruturas profissionalizadas, gerando urgências operacionais que reduzem o foco em investimentos para capacitação
  • Turnover: Alta rotatividade de profissionais, o que desestimula investimentos de longo prazo na formação das equipes

Reparação histórica

PROPÓSITO - Fundadora da Oficina amiga da Mulher, Bárbara Brier atua para ampliar a presença e a qualificação feminina no ecossistema automotivo — Foto: Keiny Andrade
PROPÓSITO – Fundadora da Oficina amiga da Mulher, Bárbara Brier atua para ampliar a presença e a qualificação feminina no ecossistema automotivo — Foto: Keiny Andrade

Nascida e criada na periferia de Belo Horizonte, Bárbara Brier, 37 anos, encontrou nos estudos em mecânica um caminho para transformar a própria trajetória – e, mais tarde, ampliar oportunidades para outras mulheres no setor automotivo. Com formação técnica em automobilística e bacharelado em engenharia de produção, ela passou a se destacar no mercado pela elaboração de manuais técnicos para a Fiat Chrysler.

As habilidades em comunicação e treinamento impulsionaram sua carreira para a liderança de projetos, incluindo a capacitação de equipes técnicas da rede de concessionárias da montadora. “Percebi que existia um grande problema de comunicação para atender as mulheres. Isso fazia com que muitas clientes e profissionais se sentissem inseguras na hora de interagir com empresas do setor”, conta.

Ao identificar uma lacuna na formação de competências voltadas ao atendimento e à capacitação do público feminino, ela pediu demissão para criar a Oficina Amiga da Mulher. Fundada em 2016, a empresa oferece programas de ensino à distância e certificações voltados à promoção da inclusão e da diversidade de gênero no ecossistema de reparação automotiva. Com 110 empresas cadastradas, a atuação inclui palestras, workshops e produção de conteúdo educacional para marcas como Localiza, Unidas e Valvoline.

Vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, Brier recentemente foi convidada a levar sua startup a integrar o quadro de residentes do Learning Village, hub de inovação da Ânima Educação, em São Paulo. Os planos de expansão da empreendedora incluem a diversificação e a consolidação de novas fontes de receita, como programas de pré-certificação e produção de conteúdo para canais digitais.

Seguros

A revolução das insurtechs
Entre janeiro e setembro de 2025, os seguros de automóveis arrecadaram R$ 45,2 bilhões, consolidando um aumento de 6,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os dados foram divulgados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg), que projeta uma alta de 7,7% em 2026.

Assim como ocorreu no sistema bancário, o crescimento é impulsionado por processos de aceleração digital liderados por novas gerações de insurtechs – como são chamadas as startups que atuam no segmento. “A chegada de players no setor tem aberto um novo cenário de diversificação de serviços e formatos mais assertivos de precificação”, afirma Ricardo Roa, da KPMG.

Direcionados pela personalização do atendimento, pela eficiência de processos e pela acessibilidade de custos, os avanços em inovação têm incentivado uma flexibilização gradual da estrutura regulatória, abrindo espaço para modelos de negócio capazes de equilibrar soluções disruptivas com mecanismos robustos de governança.

“Embora permaneça altamente regulado, o segmento de seguros registra movimentos consistentes de abertura”, observa. “A perspectiva é que os serviços fiquem cada vez mais integrados à cadeia de negócios, facilitando a participação de novos entrantes e resultando em ofertas mais competitivas aos consumidores.”

Oportunidades

  • Pay Per Use: Apólices baseadas em cobranças flexíveis, ajustadas ao volume de uso ou aos quilômetros rodados, por exemplo
  • Ultrapersonalização: Desenvolvimento de modelos de precificação e atendimento orientados por hábitos, demandas e perfis individuais dos usuários
  • Tecnologias antifraude: Soluções de automação que ampliam a assertividade na análise de sinistros, protegendo seguradoras sem gerar fricções na jornada do cliente

Desafios

  • Estrutura regulatória: Necessidade de estabelecer modelos robustos de governança e compliance para lidar com a burocracia e a complexidade das cadeias de negócios
  • Mindset do consumidor: Segundo a consultoria Intelligence Hub, 67% dos brasileiros apresentam média ou baixa compreensão sobre seguros, enquanto 47% entendem a importância de contratar uma apólice
  • Concentração de mercado: Ambiente marcado por elevados níveis de barreiras de entrada – financeiras e regulatórias –, favorecendo grandes corporações já estabelecidas

Apólices sob medida

Camila Kataguiri, da Pier, utiliza inteligência artificial para acelerar sinistros e reduzir fricções no seguro automotivo digital — Foto: Keiny Andrade
Camila Kataguiri, da Pier, utiliza inteligência artificial para acelerar sinistros e reduzir fricções no seguro automotivo digital — Foto: Keiny Andrade

Uma das pioneiras no segmento de seguros digitais, a Pier teve como foco inicial a oferta de serviços de proteção para celulares. A partir de uma proposta de valor baseada na simplificação de processos, na transparência e na agilidade na gestão de sinistros, a startup estendeu sua atuação para o setor automotivo em 2021, três anos após o início da operação.

Diferentemente da lógica de clusterização de perfis de risco adotada por grandes operadoras, a empresa se apoia em um sistema que gera análises personalizadas do perfil dos condutores para apresentar propostas e valores ajustados à realidade de cada cliente – os indicadores incluem, por exemplo, informações de geolocalização e rotinas de trabalho.

“Todos os dados de nossa base estão conectados. Essa integração permite cruzar comportamentos individuais com fatores sistêmicos para estabelecer critérios de precificação mais justos e transparentes”, explica a CEO, Camila Kataguiri, 40 anos.

Outro pilar da operação, a rapidez no pagamento de sinistros é reforçada pela aplicação de ferramentas avançadas de processamento de imagem e inteligência artificial, utilizadas para automatizar processos de vistoria e identificação de fraudes. Nos casos mais simples, a liberação dos recursos ocorre em menos de 48 horas. Para viabilizar essas inovações em escala, a insurtech aposta em iniciativas de colaboração com entidades regulatórias, incluindo a participação em formatos experimentais (sandboxes) junto à Superintendência de Seguros Privados (Susep).

Com uma base de cerca de 180 mil clientes, a expectativa é que a operação registre um faturamento de R$ 400 milhões neste ano. “A tecnologia está abrindo uma janela de oportunidades sem precedentes.”

Fonte: Revista PEGN