
Se 2025 provou alguma coisa, é que o “viral” deixou de ser apenas uma métrica de vaidade para se tornar um motor de tração de pequenos e grandes negócios. Neste ano, o algoritmo premiou a autenticidade radical, a inovação (às vezes polêmica) e, acima de tudo, a vulnerabilidade humana.
Para encerrar o ano, PEGN selecionou os 10 casos mais marcantes de empreendedores que viraram assunto nas redes sociais. Entenda como eles transformaram essa exposição repentina em faturamento, aprendizado e reviravoltas de carreira.
Por que isso está acontecendo?
Segundo o relatório ‘Why Shopping’s Set for a Social Revolution’, da Accenture, a previsão de que o social commerce movimentaria US$ 1,2 trilhão globalmente até 2025 se confirmou. O estudo apontou que a Geração Z e os Millennials seriam responsáveis por 62% desse gasto, privilegiando compras impulsionadas por vídeos curtos e recomendações de pares. Foi exatamente essa dinâmica que transformou “crimes culinários” e polêmicas de artesanato em faturamento recorde: o algoritmo virou a nova vitrine de shopping.
Além disso, a guinada em direção à “realidade nua e crua” reflete os dados do Barômetro de Confiança da Edelman (Edelman Trust Barometer). Os relatórios indicam uma queda histórica na confiança em CEOs e propagandas polidas, enquanto a confiança em “pessoas como a gente” atingiu o ápice. Isso explica por que respostas ácidas de donos de restaurantes ou bastidores caóticos de cozinhas geram mais conversão que anúncios tradicionais: em 2025, a vulnerabilidade e o posicionamento firme geram a moeda mais valiosa do mercado, a identificação.
Por fim, o debate sobre produtividade versus vida pessoal segue a tendência mapeada pela Deloitte em sua pesquisa global Gen Z and Millennial Survey. O estudo já alertava que o equilíbrio entre vida profissional e pessoal era a prioridade número um para essas gerações. Quando um empresário de 96 anos viraliza falando sobre arrependimento, ele está tocando na ferida exposta de uma força de trabalho que redefiniu o sucesso pós-pandemia.
Veja 10 histórias noticiadas por PEGN em 2025 que ilustram essas estatísticas:
1. Pizza de panetone? Empreendedor fatura R$ 100 mil em 15 dias com aposta viral de Natal
Misturar panetone com pizza pode parecer heresia, mas para Henrique Kuntzler, de 40 anos, a combinação resultou em lucro recorde. À frente da Pitoresca Pizzaria, em Curitiba (PR), ele lançou uma linha natalina que viralizou e gerou R$ 100 mil em vendas diretas em apenas 15 dias. A ideia surgiu de um brainstorming para transformar a tradição natalina em sabor, resultando em opções como “Panetone Gourmet” e “Chocotone”.
Kuntzler, que já havia viralizado anteriormente com uma pizza gigante de 32 pedaços, investiu cerca de R$ 26 mil entre testes e estoque. O vídeo da montagem das pizzas explodiu nas redes apenas 30 minutos após o envio para influenciadores. Segundo o empreendedor, o sucesso se deve ao apelo visual “instagramável” e à curiosidade do público. Além do faturamento direto, ele estima um ganho indireto superior a R$ 150 mil, impulsionado por eventos corporativos e clientes que vão pela novidade e acabam consumindo outros produtos.
2. Dona de restaurante viraliza com respostas ácidas a críticas no Google
A chef e proprietária do restaurante Lady Chu, em Sydney, transformou críticas negativas em atração turística. Nahji Chu virou assunto nas redes ao responder avaliações no Google com “sincericídio”. Ao rebater uma cliente que reclamou da experiência, Chu disparou: “Tente não culpar os outros pela sua infelicidade. O teclado não é o seu superpoder”.
Para a proprietária, a postura não é marketing, mas transparência contra a cultura de que o cliente sempre tem razão, mesmo quando é injusto. O fenômeno reflete uma tendência observada por PEGN ao longo do ano, como o caso de Maruf Ahmed, do restaurante Mumbai Kitchen, na Inglaterra, que também ganhou as manchetes ao confrontar avaliações que considerava falsas ou descabidas.
3. Após viralizar, empreendedor enfrenta preconceito e queda nas vendas, mas consegue se reerguer com apoio
O sergipano Djair Gomes, de 27 anos, viveu os dois lados da moeda da exposição digital. Ao divulgar seu delivery, o Sabor Dullar, em um vídeo que alcançou 1 milhão de visualizações, ele revelou viver com HIV. A confissão atraiu comentários preconceituosos e derrubou suas vendas em 70%. Gomes, que já havia sido demitido de um emprego anterior por causa do diagnóstico, decidiu não recuar.
Ele publicou um segundo vídeo desabafando sobre o preconceito, que recebeu apoio massivo de médicos infectologistas e internautas. “Como muitos médicos divulgaram meu vídeo, eu vi meus números virarem: as vendas aumentaram 40%”, conta Gomes. Hoje, ele fatura tanto com o restaurante quanto como influenciador, unindo a culinária à conscientização sobre a rotina de uma pessoa vivendo com HIV.
4. Empreendedor fatura até R$ 590 mil por mês com ‘trabalhos paralelos’ e dicas viralizam nas redes sociais
O norte-americano Brandon Shlichter viralizou no TikTok (onde é conhecido como @investmentjoy) ao mostrar como fatura alto com negócios que exigem pouca intervenção humana, como máquinas de venda automática e lavanderias. Somados, seus empreendimentos rendem até US$ 100 mil por mês (cerca de R$ 590 mil).
Em um dos vídeos mais populares, Shlichter detalha o investimento de US$ 1,4 mil em duas vending machines de refrigerantes e salgadinhos, mostrando a coleta semanal de dinheiro. A simplicidade do modelo de negócio “passivo” chocou internautas brasileiros, gerando debates sobre a disparidade econômica e o fascínio por rendas automatizadas.
5. Cliente critica preço de boneco de crochê, desabafo de empreendedora viraliza e gera vendas
A artesã Letícia Cristina Franskoviak, de 19 anos, fundadora da Loopsie Crochês, viu sua agenda lotar após um desabafo no X (antigo Twitter). Um cliente questionou o preço de R$ 200 por um boneco de amigurumi, alegando que “era só linha”. Franskoviak publicou o print da conversa explicando os custos e as horas de trabalho manual envolvidas.
O post ultrapassou 1,5 milhão de visualizações e gerou uma onda de apoio. “Tem as linhas que são caras, enchimento e minha mão de obra”, explicou a empreendedora. A viralização resultou em mais de 100 mensagens de interessados e dezenas de encomendas confirmadas, provando que a educação do consumidor sobre o processo artesanal agrega valor ao produto.
6. Filha planeja primeiro pedido surpresa no delivery, emociona mãe e história viraliza
A estreia da Forno e Afeto, de Araraquara (SP), no iFood, foi marcada por uma ação emocionante. A filha da fundadora, Sarah Lima, combinou com uma amiga para que ela fizesse o primeiro pedido da loja, surpreendendo a mãe, Daniele Daiane Corrêa, de 43 anos. A reação de ansiedade seguida de alegria de Corrêa foi filmada e o vídeo alcançou mais de 2 milhões de visualizações.
O que era para ser uma recordação familiar transformou o negócio. O perfil da marca no Instagram saltou de 30 para mais de 10 mil seguidores em poucos dias. “Fico feliz que meu pãozinho seja reconhecido no Brasil”, disse Corrêa, que começou a vender pães em 2020 e agora sonha em abrir uma padaria física com o impulso da fama repentina.
7. Empreendedora viraliza com vestido de crochê e gera debate sobre o preço da peça: ‘R$ 1,5 mil é um salário’
A piauiense Waleska Ribeiro, de 20 anos, causou um debate acalorado sobre precificação ao postar um vestido de crochê feito à mão no valor de R$ 1,5 mil. O vídeo da peça, que levou cinco meses para ser produzida, teve mais de 10 milhões de visualizações. Enquanto muitos criticaram o valor comparando-o a um salário mínimo, outros defenderam a exclusividade do trabalho artístico.
Ribeiro manteve-se firme no posicionamento: “Tem gente que acha caro, mas quem entende sabe que vale até mais”. A polêmica serviu para filtrar o público e atrair encomendas de quem valoriza o slow fashion. O caso ilustra a tese de Antônio André Neto, especialista da FGV ouvido por PEGN na ocasião de que produtos exclusivos permitem margens maiores e que o preço deve refletir a disposição do cliente em pagar pela diferenciação.
8. Aos 96 anos, empresário viraliza ao revelar o maior erro que cometeu na carreira
Marty Friedman, fundador da Eastern Marketing Corp, comoveu a internet aos 96 anos com uma lição de humildade. Em vídeo gravado pela neta, Izzi Friedman, ele refletiu sobre sua trajetória, que começou na optometria — profissão que abandonou por não se sentir feliz — até o sucesso no ramo de eletrodomésticos.
No entanto, o viral veio de sua confissão sobre o maior erro da vida: ter sacrificado o tempo com a família em prol dos negócios. A mensagem potente sobre arrependimento e prioridades ressoou com milhões de jovens profissionais, reforçando a tendência de busca por equilíbrio entre vida pessoal e carreira.
9. Empreendedor viraliza com pizza feita no forno a lenha em praia do Rio
Felipe Guimarães, conhecido como “Magrinho da Pizza”, inovou ao levar um forno a lenha adaptado em um carrinho de mão para as areias da praia do Recreio, no Rio de Janeiro. O negócio, operado em parceria com o sócio Marcelo Natan Pinho, viralizou após o vídeo de uma cliente mostrar a preparação da massa fresca à beira-mar.
A visibilidade fez a produção saltar para 120 pizzas por dia durante o Carnaval, faturando cerca de R$ 20 mil no período. Guimarães aproveitou o sucesso para expandir a frota de carrinhos e planejar um delivery próprio, provando que a inovação muitas vezes está na simplicidade da execução e na experiência oferecida ao cliente.
10. Empreendedor viraliza ao compartilhar rotina de trabalho à frente de hamburgueria em São Paulo
Leo Correia, dono da LC Burguer, na Zona Leste de São Paulo, decidiu mostrar que a vida de dono de hamburgueria passa longe do glamour. Um vídeo seu filtrando óleo, limpando a chapa e organizando a cozinha viralizou com quase 2 milhões de visualizações. A transparência e o capricho na limpeza encantaram os clientes.
“A entrega dos meus vídeos costuma ser boa, mas não esperava que fosse alcançar quase 2 milhões”, disse Correia. A exposição aumentou o movimento físico na loja e reforçou a marca, mostrando que, na era da autenticidade, mostrar os bastidores operacionais gera confiança e conexão com o consumidor.
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