Entender o mercado, validar a proposta e incorporar a tecnologia de forma estratégica são etapas-chave para transformar inovação em um negócio promissor
Ter uma solução inovadora pode ser o ponto de partida para a criação de um negócio promissor. Sozinha, no entanto, essa ideia não garante sucesso. Para avançar com segurança, é preciso verificar se ela se sustenta na prática – e, hoje, o uso de ferramentas digitais, especialmente de inteligência artificial, permite testar hipóteses, compreender o mercado com agilidade e tomar decisões mais precisas desde o início.
Isso inclui mapear dores do setor em que se pretende atuar, ouvir potenciais clientes e parceiros, realizar pesquisas estratégicas e lançar um MVP (Produto Mínimo Viável). Também é essencial definir com clareza a persona, o perfil ideal do consumidor, para que o produto ou serviço esteja alinhado às necessidades reais do público. Com o apoio da tecnologia, todo esse processo se torna mais rápido, acessível e eficaz.
“Uma boa ideia não estudada ou mal implementada não vale nada”, afirma Natale Papa Jr., coordenador da pós-graduação do Ibmec Rio de Janeiro. “É por isso que nem metade das empresas chega ao quinto ano de vida.”
O confronto entre o entusiasmo inicial e a realidade do mercado ajuda a evitar que se invistam tempo e dinheiro em algo sem demanda ou diferencial competitivo, além de reduzir o risco de decisões precipitadas ou baseadas apenas na intuição.
Para Paulo Costa, CEO do Cubo Itaú – hub de inovação tecnológica que conecta startups a grandes corporações e investidores –, a visão de longo prazo define se o apego à proposta será positivo ou prejudicial no início da trajetória: “O ideal, para o negócio se consolidar, é a soma da ideia, dos insights, do olhar no futuro e da análise de dados de mercado”.
Conhecer o público
Personalizar uma solução para atender a um nicho específico permite crescer de forma estruturada e consistente. Com maior consciência dos riscos e menos incertezas, o foco se volta para decisões estratégicas, como a compreensão aprofundada do perfil do consumidor.
A definição da persona nesse processo possibilita uma atuação mais precisa frente às reais demandas, além de orientar a linguagem das mensagens de marketing e otimizar as estratégias de vendas. “Faz com que se tenha um objetivo mais claro sobre quem se deseja atingir”, explica Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp). “Ao escolher uma figura humana, com [características como] nome, idade e necessidades, o empreendedor consegue concretizar o seu público, testar hipóteses, definir a linguagem para atingi-lo com maior eficiência e ajudar na tomada de decisões de vendas e desenvolvimento, entre outras vantagens.”
Apesar das particularidades de cada empreitada, essas etapas iniciais podem ser aplicadas a diferentes tipos de empreendimento, independentemente de porte, perfil ou setor. Negócios de impacto social, por exemplo, têm como propósito gerar transformação socioambiental. O lucro é necessário para manter a operação sustentável e escalável, mas está sempre atrelado à missão de promover mudanças positivas na sociedade.
Mesmo com poucos recursos, realizar pesquisas para entender as necessidades das comunidades e definir com clareza o resultado esperado torna-se essencial. “Ao menos no início da iniciativa, ter conversas de qualidade com as pessoas que serão afetadas pela proposta é melhor do que lançar formulários para serem respondidos e obter dados quantitativos”, afirma Felipe Alves, codiretor-executivo da Artemisia, organização de fomento a negócios de impacto social no Brasil.
“Vá para a rua dialogar, tomar um café na padaria com o pessoal para ter insights”, diz ele, reforçando que questionários online podem inibir ou induzir respostas alinhadas ao que se espera. “Valide sua proposta qualitativamente e verifique depois quantitativamente.”
Mais do que insistir em uma ideia inicial, criar uma solução sob medida está ligado à capacidade de fazer as perguntas certas às pessoas certas. Mesmo após a validação, os riscos permanecem – e se tornam maiores ou menores conforme as decisões tomadas ao longo da trajetória. “O essencial é estar aberto a possíveis mudanças e melhorias, experimentar, testar, analisar outras possibilidades e questionar sempre”, diz Barki, pontuando que investidores tendem a não apostar em empreendedores resistentes, “pois dificilmente irão prosperar”.
8 erros fatais
- Confundir uma dor pessoal – ou de um grupo muito restrito – com uma necessidade validada por um número relevante de indivíduos. “Não saber quanto o futuro cliente está disposto a pagar para ter acesso à solução oferecida pode colocar o negócio em risco antes mesmo de ele nascer”, alerta Éder Max, consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
- Conduzir pesquisas com perguntas tendenciosas, buscando apenas confirmar convicções pessoais, e ignorar sinais de inconsistência nas premissas.
- Presumir que o vínculo com o consumidor está garantido depois da primeira venda. “Cuidado com falsos positivos e com a recorrência”, observa Alves. “A base de clientes precisa se renovar.”
- Tratar o Produto Mínimo Viável como versão final, ignorando ajustes apontados por quem importa: o usuário. “O empreendedor não pode ser romântico. Um bom MVP tem que gerar valor”, destaca Costa.
- Apostar em perfis idealizados e caricatos, em vez de construir personas com base em dados reais e comportamentos observáveis. Uma definição sólida, lembra Barki, deve impactar diretamente a estratégia.
- Desistir do plano por ansiedade ou frustração com os primeiros resultados. Antes de abandonar a rota, é preciso entender o problema com profundidade e avaliar se correções pontuais podem trazer a resposta.
- Entregar todas as decisões à inteligência artificial (IA) e deixar de lado a própria experiência. Embora poderosa, ela não substitui o olhar crítico do empreendedor.
- Investir em soluções tecnológicas sofisticadas demais para o estágio atual do negócio pode virar desperdício. Ferramentas subutilizadas consomem recursos e comprometem a saúde financeira da empresa logo no início.
Teste tudo e peça opiniões
Investir todas as economias em um serviço ou produto sem saber de antemão se haverá interessados é um erro comum entre empreendedores que estão em fase inicial. O risco é alto, e o sonho do negócio próprio pode naufragar antes mesmo de se concretizar.
O Produto Mínimo Viável (MVP) é uma estratégia amplamente utilizada por startups e consiste no lançamento de uma versão simplificada da solução, com o objetivo de testar a aceitação no mercado e promover ajustes com base nos retornos recebidos.
“É um teste rápido com as funções mais simples do produto ou serviço e que permite crescer a partir dos feedbacks dos clientes”, diz Costa, do Cubo Itaú. “Você vai precisar entender as variáveis de acordo com o seu empreendimento e com muita disciplina, pois é uma técnica para medir o sucesso sem investir muito no início.”
A abordagem reduz as chances de fracasso, permite validar a ideia em pouco tempo, evita o desperdício de recursos e ajuda a aperfeiçoar o produto conforme as expectativas dos consumidores.
Com o avanço da inteligência artificial, os testes ganharam velocidade e ficaram mais acessíveis. Ferramentas como ChatGPT, Notion AI e Perplexity simulam interações com personas sintéticas – clientes fictícios criados a partir de grandes volumes de dados reais.
Landing pages (páginas criadas para um público com interesse específico) também auxiliam na análise de campanhas e na otimização de textos e layouts. “É possível acelerar etapas do MVP que, há dez anos, levariam mais tempo para serem testadas”, afirma o CEO.
Outros recursos úteis incluem a pré-venda, para avaliar o interesse antes do lançamento final, mockups (representações visuais do produto) e anúncios-teste em marketplaces, capazes de gerar métricas como cliques e intenções de compra.
Desenvolver um MVP é, acima de tudo, uma forma de aprender rapidamente, corrigir falhas e evoluir a solução sem comprometer o orçamento da empresa.
Temperatura baixa, negócio quente
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Transformar a paixão pelo esqui em um negócio rentável foi o percurso trilhado pela advogada Barbara Baer, 40 anos. Fã das pistas de Courchevel, nos Alpes franceses, ela enfrentava dificuldades para montar looks apropriados para o esporte e percebeu uma lacuna no mercado: em vez de gastar com roupas novas a cada ano, por que não alugá-las? Esquiadores, segundo ela, evitam repetir o visual e investem em peças variadas para montar combinações para a estação.
Com cinco peças do seu guarda-roupa, ela fez em 2022 “um MVP caseiro para testar a ideia num prazo de 45 dias” – a temporada estava acabando, e a sazonalidade era um fator importante. Buscando validar a proposta, pesquisou com possíveis clientes, consultou amigas, impulsionou um post no Instagram e transformou um dos quartos de sua casa, em São Paulo, em showroom. As primeiras clientes chegaram rápido, e a demanda superou o número de peças disponíveis.
Hoje, com um espaço próprio para atendimento e envios online para todo o país, ela aluga roupas com hora marcada. O acervo já soma mais de 1,5 mil itens – casacos, calças, botas, gorros, óculos e faixas de cabelo. “Em vez de gastar R$ 60 mil com roupas novas que vão ficar guardadas durante boa parte do ano, minhas clientes desembolsam cerca de R$ 20 mil”, afirma.
A Linda Neve cresceu. Hospeda clientes em Bariloche (Argentina), tem parceria com uma agência que organiza viagens ao Club Med e viu seu faturamento saltar de R$ 250 mil, na temporada 2022/23, para R$ 2,4 milhões, em 2024, com previsão de R$ 4 milhões neste ano.
Descubra quem vai comprar
Conhecer bem o perfil do público-alvo é um princípio básico para quem deseja construir algo sólido e duradouro. Ignorar com quem se precisa falar para vender reduz as chances de êxito.
Por isso, definir uma persona – representação fictícia do cliente ideal, baseada em dados concretos e comportamentos observados – faz toda a diferença. Com esse recurso, é possível entender necessidades, hábitos de compra, preferências e estilo de vida do consumidor.
Essa clareza permite traçar estratégias mais eficazes de atração e fidelização, já que o empreendedor passa a direcionar sua comunicação com mais precisão. “Não existe a persona ‘todo mundo’, como sonham muitos empreendedores”, afirma Max, do Sebrae.
Também é importante não confundir público-alvo com persona, alerta o consultor: “O primeiro serve para extrair informações como sexo, idade, bairro em que mora e engajar; enquanto o segundo é uma individualização que gera uma conexão maior e direciona a forma de falar, os canais de comunicação e até como deve ser o design do produto”.
Quanto mais pessoas reais a persona representar, maior o potencial de conversão. “Não adianta ser a solução de um problema de cem indivíduos apenas”, explica Alves, da Artemisia. “Nessa situação você não consegue desenhá-la como um negócio.”
Um erro recorrente na hora de construí-la é confiar apenas na intuição, sem recorrer a dados concretos. Isso pode levar a uma percepção equivocada do perfil ideal. Por isso, vale investir em pesquisas, em formulários e na análise do comportamento dos consumidores.
Outro deslize é acreditar que ela será sempre a mesma. Assim como o mercado evolui, o modo de consumir também muda – e a persona precisa acompanhar esse movimento.
Sabores da África
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O Dida Bar & Restaurante é mais do que um espaço para saborear uma boa comida. Sua fundadora, a economista Dida Nascimento, 69 anos, criou o negócio em 2015 com uma ideia clara: oferecer pratos da culinária africana pouco conhecidos no Brasil.
Esse objetivo só se concretizou três anos depois, quando visitou África do Sul, Moçambique, Senegal e Marrocos e descobriu pratos que iam muito além da tradicional feijoada e da moqueca com peixe e frutos do mar. “O que eu mais gostei de ver foi a preocupação dos habitantes desses países com a alimentação saudável, pois consumiam muitos vegetais, que vinham das hortas mantidas no fundo das casas”, conta.
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Na volta, ela desenvolveu um cardápio com pratos diferenciados, como o calulu, feito com carne-seca, farinha de milho, quiabo e berinjela; e o tocossado, um molho à base de camarões, mexilhões, castanha-de-caju e manga. A proposta conquistou desde representantes diplomáticos de países africanos até nomes de destaque, como a ativista norte-americana Angela Davis e o ator Toni Tornado.
Com o apoio dos filhos, Thiago, 40; Matheus, 37; e Stefani, 33, ela ampliou o propósito do restaurante, transformando-o em um espaço de valorização da cultura negra. “Nossa persona foi se formando e hoje a definimos como uma mulher negra empoderada, de 35 anos, e que se orgulha de sua origem africana”, explica Matheus.
A partir desse foco, o local evoluiu para uma comunidade afetiva e engajada em torno da marca. Ali acontecem encontros, rodas de conversa e palestras sobre temas como racismo e diversidade. Para oferecer suporte a mulheres negras vítimas de violência, a empreendedora também estruturou uma rede de apoio jurídico, com advogados que acolhem e prestam atendimento gratuito.
Altere o rumo se for preciso
Revisar a direção traçada para o negócio quando os resultados estão aquém do esperado não é sinal de fracasso. Trata-se, na verdade, de uma estratégia de adaptação e reinvenção. Ainda assim, muitos empreendedores resistem a fazer mudanças e se apegam ao plano original – mesmo diante de sinais claros de que é preciso seguir outra direção.
Esse comportamento pode custar caro e até levar ao encerramento das atividades. “Se o faturamento está longe do esperado, você tem sinais claros de que precisa mudar”, afirma Papa Jr., do Ibmec-RJ. “Não é hora de buscar culpados, mas procurar saber o que está acontecendo.” O problema pode estar no próprio produto ou serviço, em um preço pouco competitivo, na localização do ponto comercial ou até na baixa visibilidade nas redes sociais.
Já o perfil do consumidor – em constante transformação – merece atenção redobrada. Mudanças no cenário econômico, queda no poder de compra, desemprego e novas tecnologias impactam diretamente os hábitos de consumo. Aplicativos, marketplaces, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial são exemplos de recursos que alteram a forma como as pessoas compram e se relacionam com as marcas.
A mudança de rota não é exclusividade de quem enfrenta dificuldades. Segundo Costa, do Cubo Itaú, há negócios em crescimento que conseguem se tornar ainda mais eficientes ao fazer ajustes estratégicos. É o caso da Amazon, que começou vendendo livros, diversificou seu portfólio com outras categorias, transformou-se em um dos maiores marketplaces do mundo e ampliou sua atuação com serviços como o Amazon Prime Video.
No entanto, ao pivotar o negócio, é fundamental olhar além da oferta. Na reformulação da empresa, mudam também o perfil das equipes, a estrutura de atendimento, os processos internos e os cuidados com governança e compliance, observa o CEO. “Há, portanto, um custo interno que deve ser sempre considerado.”
Virada de jogo
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A frustração pessoal com treinamentos corporativos tradicionais, cansativos e ineficazes levou o administrador de empresas Samir Iásbeck, 43 anos, a identificar uma oportunidade de negócio. Apaixonado por tecnologia e comandando a startup eMiolo, uma software house focada no desenvolvimento de sistemas web sob encomenda, criou um aplicativo de quiz gamificado para aprendizado.
Elaborou um MVP e confirmou a boa aceitação de sua ideia entre consumidores individuais. Em 2013, com a aprovação do protótipo, fundou a Qranio, sua segunda startup, e em pouco tempo começou a planejar a expansão internacional, com parcerias que possibilitariam sua entrada na China, nos Estados Unidos, na Índia e em Portugal.
“Eu estava enfrentando dificuldades para firmar esses contratos. O Bradesco apareceu em 2014 e perguntou se poderia desenvolver um app com gamificação para sua universidade corporativa”, conta. Em pouco tempo, surgiram outras grandes empresas interessadas em disponibilizar aos seus colaboradores treinamentos mais dinâmicos e divertidos.
Diante da demanda crescente, o empreendedor e seus sócios, Flavio Augusto, 36, e Gian Menezes, 38, decidiram pivotar o modelo de negócios de B2C (venda ao consumidor final) para B2B (transação entre empresas). A mudança alavancou o negócio. Hoje, sua carteira é composta por clientes como Google for Education, Grupo Fleury, Pepsico e Vivo.
O faturamento de 2024 foi o dobro do ano anterior, e a expectativa é crescer mais 50% em 2025. “Tivemos que evoluir o nosso software para poder oferecer um produto completo para educação corporativa”, diz Iásbeck. “As soluções passaram a ser customizadas, já que não se pode escolher uma forma única e uma só mídia para ensinar tudo.”
Sua receita para pivotar com segurança é bem simples: ouvir a necessidade do cliente, criar o produto adequado – e não aquele que o empreendedor idealizou – e entregá-lo.
Identifique as dores do mercado
“O empreendedor deve se apaixonar pelo problema, e não pela sua ideia.” Essa máxima é repetida como um mantra por empresários de sucesso, consultores e professores das principais universidades do país. Não à toa: é uma das estratégias mais eficazes para quem pretende iniciar um negócio. Ao voltar o foco para a dor que precisa ser resolvida, torna-se mais fácil identificar caminhos, testar alternativas e adaptar a proposta inicial, quando necessário.
“Pergunte a si mesmo se pessoas comprariam aquele produto ou serviço e, se você tiver dúvidas, é sinal de que é preciso um pouco mais de estudo e análise”, orienta Max, do Sebrae.
Uma boa proposta precisa dar dinheiro, caso contrário não se sustentará como negócio. Ter um insight original e transformador também se tornou mais desafiador, já que informação e tecnologia estão hoje ao alcance de todos. “Focar em adaptar e melhorar o que já existe é uma excelente opção”, aconselha Barki, da FGV. “Quando você conhece os problemas que as soluções existentes não resolvem, pode encontrar uma grande oportunidade.”
Atuar diretamente em uma demanda específica do mercado abre espaço para que o empreendedor se diferencie da concorrência. Em vez de oferecer opções genéricas e já difundidas, ele se destaca por abordar com profundidade uma necessidade real – e, assim, tende a entregar mais eficiência.
Clientes satisfeitos por terem suas dores atendidas com competência e agilidade tendem a se tornar fiéis à marca. Mais do que isso: tornam-se divulgadores espontâneos, recomendando a experiência a amigos e conhecidos. Outra vantagem é a possibilidade de expandir a oferta com itens complementares, aproveitando o conhecimento aprofundado sobre o perfil e as expectativas do público-alvo.
James Brown na sala de aula
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Rodrigo Faustino, 48 anos, enfrentou uma barreira recorrente ao buscar seu primeiro estágio enquanto cursava processo de produção na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec). Participou de 15 entrevistas e não foi selecionado em nenhuma. O motivo era sempre o mesmo: a dificuldade com o inglês.
Ele logo percebeu que essa limitação era mais comum entre jovens negros como ele. Foi dessa percepção que surgiu a vontade de criar uma escola que unisse o ensino da língua e a afrocultura. “Se as pessoas aprendiam inglês ouvindo bandas como Beatles e Rolling Stones, poderiam fazer o mesmo com a música de James Brown ou um discurso de Nelson Mandela”, afirma.
Mesmo sem falar o idioma na época, fundou em 2005 a Ebony English. Ficou responsável pela gestão, enquanto colegas da faculdade assumiram as aulas. Hoje, sua única sócia é Marta Celestino, 49.
As aulas presenciais ocorriam em salas alugadas no Centro de São Paulo. Com a pandemia, em 2020, a escola migrou para o formato totalmente online – modelo mantido até hoje. O foco são pessoas negras das classes C e D, com destaque para mulheres em início de carreira, que representam mais de 60% dos 200 alunos atuais. A mensalidade custa R$ 330.
Com um crescimento médio anual de 20% no faturamento, o empreendedor já prepara os próximos passos: lançar turmas de espanhol e francês nos dois anos seguintes, também com ênfase na cultura negra. A meta é dobrar o número de estudantes e triplicar a base de clientes corporativos fixos, chegando a 15 empresas comprometidas com a diversidade.
USE A INTELIGÊNCIA (ARTIFICIAL) A SEU FAVOR
A inteligência artificial vem se mostrando uma ferramenta valiosa para os empreendedores, especialmente durante o período de desenvolvimento e validação de produtos e serviços. Há recursos que facilitam o trabalho de geração de ideias, pesquisa de mercado, prototipagem, testes com usuários e simulação de retorno financeiro.
“Até o surgimento da IA, muitos desses processos eram lentos e demorados, mas agora é possível fazer tudo isso em questão de minutos e com grande acuracidade”, afirma Marcelo Pimenta, fundador da comunidade Liga dos Inovadores e professor de inovação na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP). “Algumas técnicas tradicionais de criatividade exigem muita preparação e conhecimento prévios, mas usando bons prompts [comandos] você consegue resultados incríveis e em menos tempo.”
É possível recorrer ao ChatGPT, por exemplo, para pedir sugestões de nomes, modelos de negócios e propostas de valor. Com o Google Trends ou o Trend Hunter, dá para analisar tendências globais em tempo real, como quais termos estão sendo mais buscados, ou descobrir novidades de moda, beleza ou tecnologia. O especialista recomenda ainda o Gamma App para a criação de apresentações, propostas comerciais, sites e landing pages; o Vidnoz, no desenvolvimento de mensagens comerciais por meio de avatares; e o Fliki, para geração de vídeos de vendas e demonstração de produtos. “Apesar da eficiência dessas ferramentas, nada substitui o repertório que o empreendedor precisa ter na hora de comandar a IA, assim como sua análise crítica das respostas”, pontua.
A combinação entre conhecimento, intuição e o avanço das ferramentas de IA torna o desafio de validar um novo negócio menos complexo. Com mais agilidade e precisão nas decisões estratégicas, reduzem-se as incertezas e evitam-se desperdícios de tempo e dinheiro com soluções mal elaboradas.
Mais rápido e eficiente
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Especializada em inspeções no setor imobiliário, o Grupo Rede Vistorias, com sede em Florianópolis (SC), conta com 150 unidades franqueadas no Brasil e outras cinco em Portugal. A empresa oferece uma plataforma de serviços que acompanha toda a jornada de locação, por meio de profissionais credenciados e certificados. São eles os responsáveis por registrar as condições do imóvel na entrada e na saída de inquilinos, assegurando mais agilidade e precisão ao processo. Tecnologias como a inteligência artificial têm tornado a operação mais dinâmica, tanto na prestação de serviços quanto na gestão do negócio.
“Nossos profissionais tiram fotos do imóvel antes e depois da locação e fazem a comparação das imagens com o auxílio da IA”, explica o fundador Enrico Dias, 52 anos, que comanda o negócio ao lado dos sócios, Jonatan Matschulat, 36, e Paul Eipper, 40. “Não é preciso mais fazer relatórios longos por escrito, o que tem representado ganho de tempo e uma efetividade de 97% graças ao uso da tecnologia.”
Antes da adoção da ferramenta, o técnico realizava, em média, três vistorias por dia. Hoje são seis, com potencial para dobrar essa capacidade. A inovação tem ajudado também a resolver um problema crônico do setor: a pouca transparência nas transações imobiliárias na hora de alugar, entregar o imóvel, comprar ou construir. A automação torna tudo mais claro para todas as partes envolvidas.
O investimento nessa frente é de tal relevância para o grupo que 35% dos custos com pessoal de TI estão diretamente ligados ao desenvolvimento e à aplicação dessas soluções. “Você consegue um nível de produtividade tão elevado que não faz sentido nenhum ignorar a IA”, afirma Dias. “Por essa razão, ela está presente em todas as áreas da empresa.”
PESQUISE SEM GASTAR MUITO
A análise de mercado é uma aliada importante para quem deseja empreender e ainda tem dúvidas sobre a viabilidade da proposta. E o melhor: não exige grandes investimentos. Ir além das telas e conversar diretamente com o público-alvo tende a gerar resultados mais consistentes.
Mesmo com toda a tecnologia disponível, nada substitui o olho no olho com o potencial consumidor. Esse diálogo permite escuta mais atenta e leitura de reações não verbais – como expressões faciais e entusiasmo –, além da possibilidade de fazer perguntas abertas, captar percepções espontâneas e aprimorar a proposta inicial.
“Depois você pode visitar a concorrência, descobrir o que ela oferece e deixa de oferecer, quais preços pratica, se há algo que não é bem-feito dentro da cadeia”, diz Papa Jr., do Ibmec-RJ. “É na pesquisa que o empresário embasa o seu negócio.”
Além do contato direto com possíveis clientes, o uso estratégico das redes sociais amplia o alcance da sondagem e enriquece a compreensão sobre o mercado. Plataformas como Facebook, Instagram, LinkedIn e TikTok permitem testar percepções iniciais, observando a receptividade das postagens.
Esses dados ajudam a traçar o perfil do público-alvo e identificar quais conteúdos geram mais engajamento. Ferramentas como caixas de perguntas podem captar sugestões e ajustar a proposta com base no interesse real da audiência.
Outra estratégia é criar formulários online para envio por e-mail ou WhatsApp, analisar avaliações de produtos semelhantes em market-places e consultar dados de fontes como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e o Sebrae.
“Coloque todas as informações numa matriz SWOT [ferramenta de análise de cenários e tomada de decisões estratégicas] para avaliar os pontos fortes e as fraquezas do negócio, as ameaças e as oportunidades”, orienta o coordenador da pós-graduação. “Esses caminhos o ajudarão a concluir se a sua ideia vale a pena ou não.”
Livros com representatividade
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Foi a ausência de obras de autores negros nas prateleiras tradicionais que despertou em Ketty Valencio, 43 anos, a vontade de criar um espaço literário com outro olhar. Bibliotecária de formação e leitora atenta, ela decidiu apostar em um projeto voltado à literatura afro-brasileira e feminista – mesmo sem saber, no início, se haveria público suficiente ou retorno financeiro.
Sem recursos para contratar uma consultoria, ela foi atrás das respostas por si só. “Fiz um estudo de campo, uma investigação corpo a corpo com potenciais clientes na sociedade paulistana”, conta. Conversou com consumidores, visitou outras lojas, participou de eventos culturais e mergulhou em grupos de leitura nas redes sociais para entender melhor as demandas daquele universo. “Analisei tudo com o meu olhar de leitora.”
O resultado desse processo foi a criação da Livraria Africanidades, inaugurada em 2013 na Zona Norte de São Paulo. O espaço, que também vende online para todo o país, recebe principalmente pessoas interessadas em autores negros. Para visitar o acervo com mais de 700 obras, é necessário agendar horário.
O faturamento oscila entre R$ 2 mil e R$ 4 mil por mês, com a venda de 20 a 40 exemplares. Embora a operação seja enxuta, a empreendedora vem expandindo a atuação: promove shows, oficinas, desfiles, rodas de conversa e lançamentos. “Procuro estar atenta ao que as pessoas esperam [encontrar na livraria]”, afirma. “Não tem como deixar de fazer pesquisa de mercado constantemente, pois ele muda muito e isso reflete no meu acervo. Por isso faço eventos com frequência, pois é uma forma de estar em contato com meus leitores e entender suas necessidades.”